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A viagem suicida pós-moderna

A solidão como saída

Mateus Ramos Cardoso

Especialista em Ética pela Finon

                  Nosso modo de viver moderno é caracterizado pelo desenvolvimento cada vez mais rápido no qual a tecnologia a cada dia supera a si mesma. 

O homo  faber se vê cada vez mais diante da necessidade de  acompanhar o avanço tecnológico e o desenvolvimento do mercado, enfim, temos que produzir.            Iniciaremos argumentando com o tema da Espiritualidade do Deserto, recorrendo a uma argumentação transcendente. Em seguida estudaremos como os avanços tecnológicos tem influenciado nosso estilo de vida, compulsivo e sempre veloz.

            Concluiremos com a noção de solidão como saída para um mundo narcísico e compulsivo.

 

A VELOCIDADE DA VIDA CONTEMPORÂNEA

            Começo a argumentação com um teólogo, que bebe da chamada "Espiritualidade do Deserto", que valoriza o silêncio, a oração, o encontro com Deus e a busca de uma vida simples. Segundo Henri. J. M. Nouwen "... nosso mundo se aventurou em uma viagem suicida." (2004, p.11). Seria possível pronunciar uma palavra de esperança no turbilhão de agonias, numa sociedade  onde impera a tirania da velocidade?

            Alguns se adaptaram e vivem como zumbis, mortos vivos numa sociedade que parece caminhar para o abismo, como numa grande marcha lenta de um congestionamento humano que se dirige para seu próprio velório.

            Da mesma maneira é necessário perceber como o modo de vida hodierno é caracterizado por uma necessidade de produção cada vez maior, onde trabalhadores, em meio a um estilo de vida exigente perdem cada vez mais sua saúde. Temos um modo próprio de viver em nosso mundo contemporâneo. O que se percebe é que estamos pagando o preço pelo estilo de vida que escolhemos viver. O que temos então é que as pressões são enormes, aumentando as exigências e diminuindo as satisfações. (NOUWEN, 2004). Passos apressados e torno de um cômodo egocentrismo beirando ao desespero.

            Nosso modo de viver moderno é caracterizado pelo desenvolvimento cada vez mais rápido no qual a tecnologia a cada dia supera a si mesma.  O homo  faber se vê cada vez mais diante da necessidade de  acompanhar o avanço tecnológico e o desenvolvimento do mercado, enfim, temos que produzir. A máxima cartesiana é substituída pela máxima contemporânea: Produzo, logo, existo!

            Assistimos uma contemporaneidade veloz, onde todas atividades são atropeladas pela extrema rapidez em solucionar os problemas, vivemos entre as urgências dos milésimos. Não há recreio para a humanidade, não há intervalos e toda pausa para um suspiro que nos permita viver livre por alguns minutos parece colocar  um curto-circuito em nossa existência.Parar é blasfemar contra o modus operandi atual.

O empreendedor é o agente do processo de destruição criativa. É o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor capitalista, constantemente criando novos produtos, novos mercados e, implacavelmente, sobrepondo-se aos antigos métodos menos eficientes e mais caros.  (SCHUMPETER. J.A. 1984, p.112)

           

            O avanço tecnológico caminha nesta direção. Parece que a humanidade corre como um motociclista quando viaja utilizando o vácuo de um caminhão numa autoestrada. Mas, não se da conta dos riscos, ou  finge não saber. Como diria  Schumpeter, viajamos “... sob o vento perene da destruição criativa.” (SCHUMPETER. J.A. 1984, p.113).

            Para termos uma ideia melhor, alguns dados sobre a rapidez tecnológica,   ( que se impregna no ser humano), analisamos a argumentação do doutor em comunicação Denis Morais "Até 2005, Motorola, Nokia, Samsung e LG conseguiam colocar nas mãos dos clientes um modelo novo de celular a cada 18 meses. Tal prazo agora é considerado uma eternidade. A média caiu para nove meses. Em alguns casos, o lançamento demora seis meses."(2013)

            Com isso, podemos ter uma ideia de como a cultura tecnológica acaba se incorporando no comportamento humano. Passamos a buscar um paraíso técnico e na música da Banda de Heavy Metal, Black Sabbath, intitulada "Computer God", isso fica mais claro: "Programe seu cérebro, e não as batidas do coração." Ou seja, o amor se torna um prazer automático, e acabamos robotizando nossas vidas. E a grande questão agora não é se surgirão computadores com uma consciência humana, mas, se nós já não estamos vivendo como máquinas, apenas executamos funções rapidamente e eficazmente.

            Essa aceleração incontrolável, segundo Denis Moraes, "ao mesmo tempo em que amplia as nossas capacidades de conhecer, imaginar e interagir, o delírio  tecnológico não desfaz desigualdades socioeconômicas, repõe tensões sociais e, não raro, se presta ao fim último de mercantilizar a vida. (2013)."

             Quem não está conectado a esta velocidade é excluído, ocorrendo uma humanização dos computadores, no qual, o "Facebook" passa a ser uma espécie de Muro das lamentações virtua. Não participar dessa corrida é correr o risco de ser deletado.

 Quem não está conectado estará excluído de maneira cada vez mais intensa e variada. A brecha acirra os contrastes entre regiões, países e grupos sociais. Países menos digitalizados vão sendo confinados ao quintal da globalização em termos de intercâmbio cultural, protagonismo político, crescimento econômico e, em consequência de tudo isso, bem-estar social.(HOPENHAYN, 2002.  p.238).

             Contudo, não se quer  dizer que os avanços tecnológicos devem ser excluídos e que somente há o lado sombrio da tecnologia. Mas, é necessário  questionar esta euforia tecnológica (MORAES 2013), procurando  um equilíbrio.  

            A rapidez tecnológica pode gerar uma noção de que tempo  necessita ser comprado, e que nossas relações, nada mais são do que transações comerciais. E , então podemos perguntar: "Onde há espaço para ser humano, literalmente, viver a humanidade. Afinal, computadores não admitem falhas.

            Influenciados pela rapidez tecnológica podemos  construir um "eu compulsivo". 

            Segundo o Teólogo Henri J. M. Nouwen, (2004) nossa sociedade é como uma rede perigosa, onde as relações estão a carregadas de prepotência e manipulação, não sendo muito difícil ficar preso e se perder nela. Examinemos por um momento nosso cotidiano. Geralmente, somos muito atarefados, reuniões para ir, visitas a fazer, compromissos, etc. É raro o momento em que não tenhamos o que fazer. Parece que vivemos de tal maneira compulsiva, que não temos a calma para parar e se perguntar se o que fazemos é realmente o necessário. Simplesmente fazemos, automáticos, como máquinas obedecendo  a comandos: é preciso motivar as pessoas, obter dinheiro e todos precisam estar contentes. Como pessoas atarefadas, recebemos a recompensa de pessoas atarefadas. Nossa identidade passa a estar em perigo. Vivemos em tempos no qual nossa individualidade depende da aprovação dos outros.  Que sou eu? Sou aquele que é apreciado, elogiado. Se conhecer muitas pessoas prova minha   importância, farei os contatos necessários. Se possuir dinheiro significa ter liberdade, então, irei em busca do meu direito de ser livre, mesmo que o seja, comprando. Um "eu compulsivo" apenas mostra o medo oculto que temos de fracassar, e para evitar, impulsivamente, passamos a existência juntando mais das mesmas coisas, mais amizades, mais dinheiro. Lutamos para ter tanto. Consumimos felicidade, devoramos alegria.

             Tais exigências podem se tornar fatores de característicos estressantes, especialmente os de origem psicossocial, são acentuados por autores como Joca, Padovan e Guimarães (2003),  argumentando que cerca de 60% dos casos dos episódios depressivos são precedidos por situações estressantes, seja no trabalho, na família, etc

            Os Estados Unidos, gastam anualmente  em torno de  U$ 12,4 milhões, no tratamento de doenças psiquiátricas. No Brasil, por exemplo, a esquizofrenia afeta cerca de 1% da população. Precisamos nos "dopar" para suportar o aumento de problemas a serem encarados. Não vivemos, sobrevivemos.

            Na Pós-modernidade, o ser humano é visto como coisa. Objeto a ser consumido, objeto a ser venerado, e adoece por não ser tratado como ser humano, mas um ser fora de si, um “ser-coisa”, que busca a todo momento o ideal, mas, foge do real.

A solidão  passa a ser  uma maneira de sairmos dessa rede perigosa, de manipulação, pois, com ela se busca a condição da minha consciência crítica. Afinal estar adaptado em uma sociedade doente, não é um bom sinal. Na palavras de Renato Russo "O que é demais, nunca é o bastante."

Mas a solidão não pode ser entendida como um simples afastamento, como recarregar as baterias, como ir ao canto do ringue para retomar o fôlego. De certa maneira, impera a noção de "... solidão como um lugar onde juntamos novas forças para continuar a constante competição da vida." (NOUWEN, 2004, p.25). Muito pelo contrário, a solidão não pode ser vista como uma simples terapia, no qual fugimos, mas um lugar de conversão, propiciando o nascimento de um novo eu.

Podemos visualizar uma reação aos problemas atuais na critica marxista, que se caracteriza por ser sempre exterior: o problema são ou outros, o Estado, a Igreja, a Escola, etc. No silêncio somos levados a suportar o que realmente somos e não sobreviver na expectativa do que os outros pensam de nós.

A saída esta em  trocar a substancia da nossa individualidade, mecanizada, compulsiva, por uma algo além de nossa humanidade, é necessário transcender a imanência. Assim, "A solidão é um lugar da grande luta e do encontro - a luta contra as compulsões do falso eu e o encontro com o Deus zeloso que se oferece como substância da nova individualidade." (NOUWEN, 2004, p.24)

 

CONCLUSÃO

 

Trata-se, nessas condições,  de “desafiar o senso comum”, buscando conscientizar para os padrões de vida vigentes, como o consumismo, a desigualdade social, o trabalho em excesso, na tentativa de defender uma maior qualidade das relações sociais, para que possamos construir uma sociedade laboriosa que seja também simultaneamente sóbria e existencialmente autônoma.

O individuo passa a ser visto como um objeto, que compra e é comprado, tomado pelo sistema, que toma seu tempo para fazer do trabalho o ideal de vida, para fazer que sua individualidade dependa sempre da aprovação dos outros, numa sociedade narcisista.  Ele, é portanto, sempre um “outro”, nunca um “eu”.

            Nessa viagem suicida pós moderna, temos um leitura  que nos  leva a perceber que o ser humano passa a ter, no mínimo, três exigências básicas: 1ª sempre ser aceito por todos; 2ª  ser bem sucedido em tudo para sempre; 3ª ser agradável, perfeito, etc, sempre ”

            Somos convidados a parar  e nos questionar, no meio deste turbilhão de mudanças; Afinal, o que queremos da vida?

 

REFERÊNCIAS

 

JOCA, S. R. L., PADOVAN, C. M., & GUIMARAES, F. S. Stress, depression and the hippocampus. Revista Brasileira de Psiquiatria, 25(2), 46-51. (2003). Retrieved September, 2006, from http:/ /www.scielo.br

Joseph A. Schumpeter. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984, p. 112.

 

NOUWEN, H.J.M. A Espiritualidade do deserto e o ministério Contemporâneo: O caminho do coração.

 

MORAES, D. A tirania da velocidade e da inovação para o lucro. Disponível em:                   <http://blogdaboitempo.com.br/2013/05/08/a-tirania-da-velocidade-e-da-inovacao-para-o-lucro/>. Data de Acesso: Quarta-feira 08/05/2013

 

HOPENHAYN, M. Educación y cultura en Iberoamérica: situación, cruces y perspectivas, em CANCLINI, Néstor García (org.). Iberoamérica 2002: diagnóstico y propuestas para el desarrollo cultural. México: Santillana, 2002.   

 

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