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 A significação do Baobá na cultura africana e suas transmutações ideológicas pós-contato europeu.

Vanderleia Barbosa da Costa

Graduanda em Gestão de Turismo

 pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo- Campus Cubatão

O Baobá é uma árvore originária das estepes africanas e regiões semiáridas de Madagascar, seu nome científico é Adansonia digitata; pode atingir até 30 metros de altura por 7 metros de circunferência. É resistente, sobrevivendo por longos períodos de estiagem, devido à sua capacidade de armazenar água, cerca de 120 000 litros e atinge até seis mil anos de idade. Pela magnitude e força, o Baobá é para muitas etnias africanas a árvore da vida.

 

Segundo Azevedo, as raízes do Baobá representavam os ancestrais da comunidade, os quais, como as raízes da árvore, também estavam firmes na terra e em suas origens continuavam participando da vida do grupo, auxiliando-os em importantes decisões e um dia reencarnariam para retornarem ao seu clã. O tronco eram as crianças em crescimento, indo em direção ao ápice de suas vidas. Galhos e folhas significavam o amadurecimento, e as folhas, ao caírem, retornando ao solo para alimentar as raízes, davam continuidade ao ciclo.

Dignificados enquanto marco identitário, os Baobás confirmam um mandato repassado por gerações que habitam o reino dos antepassados, ciosamente resguardado em nome da tradição. Assim, bem mais que uma árvore, o Baobá é, por excelência, o guardião de sentidos e significados endossados pelos povos da África, pelas suas sociedades e culturas, seus modos de ser, suas aspirações, expectativas de vida e religiosidade. (WALDMAN, 2011, p.2).

 

Segundo Santos (2011, p.3), o Baobá é o elo entre vivos e mortos, quando morria, o Griot (sábio das comunidades africanas que através da oralidade transmite para as novas gerações toda a cultura e história de seu povo) era enterrado dentro do tronco do Baobá de sua comunidade; dessa forma continuava “vivendo” dentro de um organismo vivo.

O culto e respeito pela árvore Baobá transcende à admiração pela espécie das estepes africanas, resistente às adversidades temporais. Ao se estudar a simbologia, fica provado que seguir os preceitos dados pelos que os antecederam, saber suas origens e ver sua comunidade como parte de um único sistema interligado era o que tornava o africano um cidadão e mantinha nele o sentimento de pertencimento àquele grupo e o levava a agir em prol daquele.

Entretanto, quando os portugueses chegaram à África e em 1412 conquistaram Celta (região localizada no norte da África), importante rota comercial, os árabes, que mantinham relações comerciais com os povos africanos, conseguiram isolar os lusitanos das rotas de comércio. Devido a estes fatos, os portugueses perceberam que precisariam estabelecer laços com os nativos para que seus intentos fossem alcançados. Para isso, passaram a estudar a cultura local, pois, sabemos, a melhor forma de se começar uma relação e de conhecer as fraquezas de um povo é estudando sua cultura.

Desta forma, muitos portugueses passaram a se relacionar com os africanos, fazendo alianças matrimoniais e a assimilação da cultura de determinados grupos, o que lhes oferecia alguma vantagem no comércio, inicialmente de produtos e logo depois seres humanos. Os portugueses, com a interferência nas comunidades africanas, passaram a alcançar seus objetivos e também a desrespeitar símbolos ideológicos africanos, como por exemplo, o Baobá, símbolo da ancestralidade e elo de articulação das muitas comunidades.

Segundo Vainsencher (2009), na região hoje conhecida como Senegal, são encontradas gravações do brasão de Dom Henrique nos troncos dos Baobás. Ou seja, os portugueses atacaram o monumento representativo das raízes daquele povo para dizer então que as normas a serem seguidas não seriam mais as deixadas pelos antepassados africanos, mas sim as que o reino de Portugal estava impondo.     

Além desta transfiguração, também fizeram com que a árvore da ancestralidade representasse a árvore do esquecimento no imaginário africano. Segundo Costa e Silva (1994), em 1788, havia em Ajudá (atual Benim) um traficante de escravos brasileiro chamado Francisco Félix de Souza, neste período o rei daometano, Adandozan, dominava a região em que Francisco Félix de Souza comercializava cativos. Eles se desentenderam, o rei prendeu o comerciante, o qual passou a conspirar com Guezo, o irmão do rei, derrubando o monarca em 1818. Após, estabeleceram um acordo comercial e Francisco foi nomeado administrador da venda de cativos e passou a intermediar as relações comerciais entre europeus e daometanos.

Havia um processo aplicado por Francisco Félix para embarcar os escravos nos navios negreiros. Os prisioneiros caminhavam grandes distâncias a pé durante a noite, pois a escuridão impedia que encontrassem o caminho de retorno caso tentassem fugir. Quando chegavam ao forte de Ajudá, eram confinados em um grande pátio e ficavam acorrentados uns aos outros. Era realizado um leilão e, logo após a compra, marcavam-se com ferro em brasa os cativos, para que fossem identificados a quem pertenciam. Antes de embarcarem nos negreiros, eram obrigados a dar voltas em torno de um Baobá que ficou conhecido como a árvore do esquecimento. Mulheres davam sete voltas e homens nove, para apagar as lembranças da terra natal e de sua ancestralidade. Ao completar o ciclo, já não pertenciam a nenhum lugar e suas memórias eram jogadas no limbo, eles deixavam de ter uma cultura e vínculos familiares.

Este rito garantia aos comerciantes que os cativos não iriam fugir, pois não tinham mais para onde ir.Os africanos deixavam de ser cidadãos e ficavam à mercê de quem os capturassem; mesmo que se rebelassem, já não pertenciam a lugar algum, pois haviam renegado seus antepassados. Percebe-se que o estrangeiro em território africano estudava a sua cultura, não para melhor entendê-los, mas sim para dominá-los.

A memória dos africanos preocupava os mercadores, pois estes tinham a plena consciência de que a cultura ancestral empodera e articula as pessoas, as quais, quando se reconhecem semelhantes em suas práticas culturais e ambiente social, histórico e político, têm a capacidade de se mobilizar em prol de seus direitos graças a esses elos. Porém, quando não possuem identidades ou não são manifestas, as pessoas não possuem condições para mudar sua realidade. O rito em torno do Baobá, imposto pelos mercadores de escravos, foi umas das muitas tentativas de se apagar a ancestralidade e raízes africanas.

Do século XVII a XIX, a cidade de Ajudá tornou-se a principal fornecedora de escravos da África Ocidental, exportando mais de 1 milhão de pessoas. Estima-se que o continente africano enviou para as Américas cerca de 12 milhões de africanos, onde cerca de 85% tinham como destino o Brasil e outras colônias caribenhas, francesas, espanholas e holandesas e 6% foram para os Estados Unidos.

Entretanto, apesar de todos os esforços dos europeus em apagar as memórias tradicionais do africano para desarticulá-lo, tendo em mente que um povo sem cultura, sem referenciais e sem sentimento de pertencimento a um grupo é facilmente subumanizado, mesmo na condição de escravo, o africano buscou dar uma ressignificação ao Baobá, tornando-o símbolo de resistência.

Assim, o Baobá continua a inspirar as novas gerações de africanos e afro-descendentes na afirmação de sua identidade. Mais do que uma árvore, o Baobá tornou-se um símbolo civilizatório, baluarte da memória africana, no seio do qual muitas comunidades encontram abrigo e esperança. (WALDMAN, 2011, p.6).

 

 

 Existem relatos de que na região supracitada, atual Senegal, as pessoas que iriam ser transportadas nos tumbeiros levavam consigo, escondidas nos cabelos, sementes do Baobá. Segundo elas, mesmo sendo retiradas de sua terra, sua ancestralidade e cultura resistiriam, pois plantariam sua árvore da ancestralidade onde quer que as levassem. Segundo Rashford, os Baobás brasileiros são encontrados em áreas do Nordeste que no período colonial eram produtoras de açúcar. Recife hoje é conhecida como a capital do Baobá e possui 11 árvores tombadas.

Percebe-se que as duas primeiras transmutações ideológicas impostas pelo europeu na significação do Baobá foram para desestruturar o africano, pois quando sua cultura foi atacada e estudada, eles ficaram vulneráveis e foram facilmente manipulados.

A cultura é fundamental para a sobrevivência de um povo. É ela que agrega e articula os indivíduos de mesmos ideais; se os portugueses não tivessem assimilado os costumes e tradições dos grupos que julgaram estratégicos e tivessem tentado dominá-los pela força das armas, é muito provável que tivessem fracassado ou o processo de escravismo comercial tivesse demorado muito mais tempo para se consolidar.

As etnias africanas lutaram intensamente para preservar sua cultura que foi desqualificada e transmutada; mesmo longe da terra natal, criaram no Brasil o elo com seu continente ao plantar sua arvore ancestral. A partir da busca e resgate de suas crenças, os africanos aqui introduzidos e os neonegros empoderaram-se para transformar sua realidade. Baobá é mais que uma árvore, Baobá é o ciclo de lutas de um povo que sofreu a diáspora e na busca incessante de preservar sua humanidade recriou sua cultura para se articular e atravessar o cativeiro com dignidade.

 REFERÊNCIAS

 GUTIERREZ, Carolina. Baobá: comunicação da resistência. Monografia (graduação em jornalismo), Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2009.

 WALDMAN, Maurício. O Baobá na Paisagem Africana: Singularidades de uma Conjugação entre Natural e Artificial. Texto de apoio elaborado para o XIII Curso de Difusão Cultural “Introdução aos Estudos de África”, promovido pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (CEA/USP). São Paulo: CEA-USP. Semestre de 2011.

 VAISENCHER, Adler. Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco em artigo sobre o Baobá. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=477&Itemid=181

 GOLDSTEIN, Ilana. A rede social do tráfico negreiro. Dossiê MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO. Disponível em: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2645,2.shl

 Revista Raça, matéria que aborda: Culto aos ancestrais, a grande alavanca que reergue os valores das mais diversas etnias e nações africanas e as suas raízes na terra. Disponível em: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/137/artigo155789-1.asp Acessado dia 25/07/2011.

 Reportagem de Celso Calheiros sobre Recife Capital dos Baobás. Disponível em: http://www.oeco.com.br/reportagens-especiais/24002-a-capital-dos-baobas.

 Reportagem sobre tombamento de Baobás no Recife. Disponível em: http://www.geledes.org.br/component/rsfiles/view?path=baoba-protegido-porlei.

pdf&Itemid=585

 Vínculos ancestrais:Acessado dia 25/07/2011  http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/137/artigo155789-1.asp

 Volta inversa na Árvore do Esquecimento: Acessado dia 28/07/2011

http://diariodoandre.com/2010/08/12/volta-inversa-na-arvore-do-esquecimento/

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