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Coluna do Leitor

Os cães anônimos de um anônimo de esquerda

Dias após a eleição de Lula para Presidente, enquanto a mídia especulava sua equipe de governo e o mercado debatia-se ansioso para conhecer a chefia da futura equipe econômica, encontrei-me com um anônimo acompanhado de dois cães.Digo “encontrei-me” por assistir aos mesmos nas margens de uma calçada no centro da cidade, acompanhados de um carrinho de mão, instrumento de trabalho, nem sequer repleto de papeis e papelão. Digo “assistir”  porque nem sequer parei o carro... e não haveria motivo para tal. Mas mesmo de longe houve um determinado Encontro.

Olhei pelo retrovisor e a imagem ficou gravada, como em uma cena de TV, uma foto nítida, colorida, triste e incômoda.

Frente a este quadro, pintado em pele e ossos fico a pensar: enquanto o mercado fica atônito em desconhecer os nomes, apesar de já conhecer o presidente eleito, enquanto o mercado fica preocupado e altamente especulativo em desconhecer os líderes da futura equipe econômica, apesar de já conhecerem  as propostas do Presidente eleito, ninguém conhece as propostas e intenções daquele homem; ninguém conhece, sequer o sexo de seus únicos e fieis companheiros: os cães, ou seriam duas cadelas?No fundo não queremos saber! Não queremos saber os nomes, não queremos saber da intenção! Queremos saber de nós... de nosso futuro... do futuro de nossa empresa, nosso comércio, nosso emprego, nossa escola, nossa casa... quero saber da minha vida... do resto preciso saber somente o que me convém.

Cães (ou cadelas) de um anônimo! Incerteza deles... desprezo e insensibilidade nossa.

Agora que elegemos um Presidente de Esquerda, devemos repensar o que é efetivamente Esquerda em nosso país.

Inquestionavelmente nunca na história deste país tivemos um Presidente que viesse das classes populares, crescesse politicamente nas classes populares e se elegesse com as classes populares com propostas, interesses e intenções populares.

Um Presidente de Esquerda: politicamente de Esquerda, mas também socialmente de Esquerda, defendo os interesses dos anônimos e dos empobrecidos, um Presidente com Sensibilidade.

Defendo, assim, ser de Esquerda, hoje, aqueles que não agüentam mais, aqueles que vivem pelas ruas, na rua em busca de um emprego, de um dia de serviço, de latinhas e papelão, de doações, de alimentos, de  qualquer coisa. De Esquerda também são aqueles que se encontram com essas pessoas, mesmo que sem pensar em parar o carro, incomodam-se com estas pessoas e conduzem suas preocupação e suas atitudes motivadas por este encontro.Elegemos um presidente de esquerda, apontamos uma clara e nova prioridade para nosso país: voltar todos os nossos esforços, todas as nossas preocupações, mesmo que “sem poder parar o carro” naquele momento e pensar, o que posso alterar em minhas atitudes e sem piedade, sem oferecer esmolas, sem atos de que aliviem nossa consciência, conduzam a um maior engajamento na identificação dos anônimos e andantes em nossa sociedade.

Temos problemas, estamos em uma situação difícil nesta sociedade egoísta, individualista e consumista: quanto mais nos afastamos da Esquerda, quanto mais nos fechamos nos velhos valores e sustentações de nossa própria vida, maiores serão as dificuldades pelas quais nós mesmos deveremos passar.

Somente com as mudanças de prioridades, estatais e governamentais, empresariais e sociais, como ainda somente com a mudança de nossas prioridades e preocupações pessoais poderemos deixar de sermos uma pessoa anônima em uma família anônima, colocada em uma sociedade anônima, composta de indivíduos fechados e individualistas. Que as pessoas de Esquerda, que reivindicam mudanças pela sua própria presença e situação, que apontam para a necessidade de mudanças radicais, possa ser Encontradas por nossa sociedade, por cada um de nós... Que essas pessoas... que cada um de nós... possa ter um nome, uma intenção e um interesse que convirja para os outros.Que um dia, ao encontrar com “os cães anônimos de um anônimo”,  possamos parar o carro e tenhamos condições de tirá-los do anonimato e colocá-los definitivamente no interior da sociedade.

Poderia assim definir ser de Esquerda: encontrar o outro necessitando, sentir-se incomodado e assim agir frente a suas necessidades, exigindo mudanças para aqueles que encontro no dia a dia sem ter o que precisam.

José Jorge Guedes de Camargo

Advogado e Licenciado em Filosofia

 

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