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Fruição e representação: aspectos fundamentais para a realização humana

(artigo brevemente revisado em 16.07.2016)

O presente artigo tem por fim apresentar uma leitura reflexiva sobre o capítulo “Fruição e Representação”, do livro “Totalidade e Infinito”, de Emmanuel Lévinas.

Fruição e representação devem ser pensados preliminarmente a partir da intencionalidade presente em ambos os processos. O ponto de partida nessa reflexão, portanto, tem lugar no entendimento sobre a distinção entre vida e viver de. Embora a vida se constitua, em última análise, da continuidade estabelecida pelos processos de viver no mundo, o modo de viver mantém-se radicalmente distinto da própria vida e envolve tanto a representação como a fruição.

Surge, então, a necessidade de se precisar qual a distinção existente entre esse viver que se revela como fruição e a “intencionalidade teorética do ato objetivante ou representação. Pensar a fruição como modo de representação, no sentido husserliano do termo, leva como já se sabe ao primado da representação, como que subordinando a fruição à representação intelectual.

Para enfrentar esse desafio, o autor propõe uma reflexão acerca da intencionalidade considerando-a em face da representação e da constituição.

Segundo o pensamento husserliano, o objeto representado é constituído pelo ato da representação. Daí, segue-se que o objeto depende da representação para ter existência, isto é, a representação constitui o objeto. Nas palavras de Lévinas: “O objeto da consciência, distinto da consciência, é quase um produto da consciência como sentido emprestado por ela, como resultado da Sinngebung”.

Neste sentido, o leitor pode olhar para um objeto que esteja ao seu alcance e indagar: “Que é?” Considerando que cada coisa é representada segundo a intenção de cada um e, por isso, só existe como fenômeno físico enquanto “produto” da representação, como lembra, aliás, Brentano, a resposta será variável segundo a intencionalidade de cada um.

Assim, prossegue Lévinas, “o objeto da representação distingue-se do ato da representação.”

O objeto, podemos dizer, oferece-se tal e qual para quem quiser representá-lo, mas no processo de representação, há uma interiorização desse objeto, agora representado, ao pensamento e, portanto, considerando que cada pessoa representa segundo sua intenção, aquele objeto passa a ter infinitas representações e, pois, infinitos noemas.

Nesse caminho introspectivo, esvai-se a diferença ente o pensante e o objeto. Não há mais exterior. Tudo é pensamento.

E, se acaba a exterioridade, finda também a indeterminação do Outro, que é determinado pelo Mesmo, o qual nunca é determinado, contudo, pelo Outro. Não há uma interiorização da alteridade. Ocorre o “desaparecimento, no mesmo, do eu oposto ao não-eu”.

Assim é a intencionalidade no processo de representação. O homem vive conforme as representações que faz, dando existência à exterioridade. Antes da representação, as coisas não “existem”, dependem da representação do homem para que possam ter existência. A existência real, portanto, pode-se dizer, depende da existência mental.

 Já no processo de fruição ocorre o oposto. Há um enfrentamento, uma oposição corporal, por assim dizer. O “corpo nu e indigente”, para usar as palavras de Lévinas, dinstingue-se das outras coisas. Não é constituído pelo Eu, “nem instrumento de um pensamento gestual, cuja teoria marcaria simplesmente um limite.”

A interação do homem com o ambiente que vive enseja, assim, um processo de determinação recíproca, isto é, “o Mesmo determina o Outro, ao mesmo tempo em que por ele é determinado”.

Mas, ressalte-se, essa reciprocidade não é tal qual afirma Kant. É, como diz Lévinas, uma maneira de viver, um “viver de...”.

O homem, nessa relação de lidar com o que o mundo lhe oferece, efetiva a alimentação. O homem alimenta-se do mundo em que vive. Aquilo de que vive é diferente da maneira como vive. A maneira é a fruição, enquanto aquilo de que vive é o alimento.

Mas, ressalta Lévinas, “o mundo em que vivo não é apenas o frente a frente ou o contemporâneo do pensamento e da sua liberdade constituinte, mas condicionamento e anterioridade. O mundo que constituo alimenta-me e embebe-me, é alimento e meio”.

Ocorre um reviramento, uma mudança de papel, aquilo que é constituído passa a ser condição, e tudo num instante único, em que “só abro os olhos fruindo desde logo do espetáculo”, e que uma vez representado, como o próprio termo indica (particípio passado do verbo representar), já faz parte do passado. Presente só o fazendo.

Poder-se-ia, consoante lembra bem Lévinas, pensar-se a fruição numa correlação à representação. Entretanto, a irredutibilidade ao pensamento torna-a diferente. Mas “em que é que a permanência do homem no mundo de fruição se mantém irredutível e anterior ao conhecimento desse mundo?” Essa é a questão que leva à discussão do “elemento e a coisas, os utensílios”.

Nesse sentido, o homem possui - tem a propriedade sobre as coisas que estão no mundo, mas não tem como possuir o ambiente em que está inserido, qual seja, o ambiente em que encontra as coisas de que se alimenta, o elemento. Como exemplo, Lévinas cita a terra, o mar, a luz, a cidade. Assim, o homem utiliza esses elementos, mas não os possui. “O elemento não tem face. Não é abordável”.

Há um mergulho no ambiente. O homem está no seu interior, inserido e manuseando-o (entendendo-se, aqui, o verbo manusear extensivamente, como toda forma de utilização e alteração), e dele extraindo o que lhe vai servir de alimento. E todo esse processo dá-se, segundo Lévinas, no domicílio, a forma de o homem superar o ambiente sem sair dele.

O elemento, lembra, ainda, é indeterminado. Como de fato, não se pode determinar um vento, uma chuva, tal e qual um objeto. Estamos, nesse ponto, já nos deparando com aspectos próximos da distinção de finito e infinito, porquanto o infinito também é indeterminado, mas não há equivalência entre a indeterminação do infinito e do elemento, vez que a indeterminação deste último é por outro caráter, o de não redução à coisa, e não e inexistência de limites. O elemento é indeterminado. Daí, não é objeto. E não há “outra face” para ser descoberta.

O objeto existe para fruição. “As coisas referem-se a minha fruição”.

É uma fruição que não tem preocupação com a existência, mas com a sua própria constituição. Para existir, é preciso ser, para ser é preciso se constituir, para se constituir, é preciso se alimentar, se alimentar do mundo. A constituição, como se vê, mais uma vez, é anterior a qualquer representação.

Existe, sim, a sensibilidade, que não pertence ao plano do pensamento, mas ao dos sentidos. Por isso, não se confunde com representação.

É nesse sistema fruitivo que o homem depara-se com Outrem. Aí, sim, abre-se a “tela”[1] do infinito, no “face-a-face”.

Aqui, nesse ponto, Lévinas aponta, com agudeza crítica, o problema do dasein heideggeriano, que não distingue a fruição. “O dasein de Heidegger nunca tem fome. A comida só pode interpretar-se como utensílio num mundo de exploração”.

O ato de constituição do ser humano, a fruição, não é racional, mas, sim, sensitivo. É preciso, ao viver, fruir, sentir, alimentar-se. “Os objetos contentam-me na sua finitude, sem me aparecerem num fundo de infinito”.

Importa ressaltar, enfim, que o elemento que se mostra indeterminado provoca um transbordamento da sensação, fazendo nascer daí uma insegurança no homem, que não o apreende totalmente. Sobra sempre, pois, um aspecto de mistério, de dúvida. Por isso, Lévinas afirma haver no elemento um “formato mítico”.

Destarte, podemos concluir, em poucas palavras, que  fruição e representação são processos que se desenvolvem pautados opostamente, o primeiro pelas sensações e o segundo pela razão. No processo de constituição do ser humano, a fruição ocupa o papel fundamental e anterior, senão temporal, mas ontologicamente ao da representação.  Assim, Lévinas justifica e esclarece porque a sensação não ocupa um papel inferior ao da razão na vida do homem, donde pensamos que o homem deve sim se preocupar com a sua satisfação fruitiva, vez que somente assim poderá alcançar a satisfação intelectual.

Luiz Meirelles,

Bacharel em Direito e Licenciado em Letras e Filosofia (Unisantos);

Mestrando em Filosofia (PUC/SP)

Presidente do Centro de Estudos Filosóficos de Santos–CEFS

 



[1] Termo empregado pelo autor, numa alusão à tela do cinema, que consegue trazer uma perspectiva do infinito, sem encerrá-lo, evidentemente.

 

 

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