Revista Paradigmas. Edição 01

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Maquiavel; Herói ou vilão?

 

Quem nunca ouviu a famosa frase: "O fins justificam os meios.", ou nunca disse antes: "Mas que plano maquiavélico."?

Todas estas expressões têm sua origem no trabalho de um dos mais importantes pensadores da história humana, o homem que criou a ciência política: Nicolau Maquiavel.

Quando usamos estas expressões tão conhecidas, colocamos sempre um cunho negativo nelas. A tradição costuma colocar Maquiavel no rol dos bandidos e dos amorais da sociedade. Normalmente, quando falamos de alguém que é maquiavélico, nos referimos a uma pessoa má e sem escrúpulos; uma pessoa gananciosa que não pára diante de absolutamente nada para conquistar seus objetivos. Maquiavélica é uma pessoa que busca a realização pessoal através de meios escusos como corrupção, assassinato, chantagem, espionagem e tudo mais.

Mas será que esta fama atribuída a Maquiavel é realmente justa? Será que ele realmente pregava a ausência de moral e escrúpulos na política e a colocava como o reduto de homens egoístas e corruptos?

Vamos assumir, por um instante, uma postura investigativa para responder a estas perguntas.

Para termos sucesso em nossa busca, faz-se necessária uma análise cuidadosa do período histórico em que Maquiavel viveu, bem como das influências culturais que ele sofreu.

O nosso pensador foi um homem que viveu na época conhecida como Renascença, e, como qualquer um, ele foi influenciado por este movimento.

Mas o que era a Renascença?

O movimento renascentista foi uma forte afirmação do humanismo; o homem era celebrado e exaltado até a divindade; era ele dominador da natureza e senhor do mundo, dotado de poderosa razão. Estes valores trouxeram grandes mudanças em todos os campos da sociedade; filosofia, música, artes plásticas, ciência e também na política.

Na Idade Média havia aquela famosa visão de que o princípio e o fim último do homem estava em Deus e, portanto, fora deste mundo, desta vida terrena. A natureza humana era, por conseguinte, originariamente boa (nascido de Deus) e  não devia o ser humano preocupar-se com esta esfera material, mas apenas com a espiritual.

 Também, a visão política era simples: o fim último da sociedade humana é o bem universal; uma sociedade onde reinassem o bem, a verdade, o amor e a justiça para todos, onde reinasse Deus.

Agora, a política mudara o seu eixo. Era importante olhar a realidade material, os fatos concretos, e ver as coisas de uma forma prática. Por quê? Simplesmente porque o homem está neste mundo material e é aqui que ele deve solucionar os seus problemas.

Assumindo o espírito de seu tempo, Maquiavel acreditava ser a política não o "reino do que gostaríamos que fosse" nem o campo "do que deveria ser". A política não podia perder-se em pensamentos elevados do mundo espiritual, mas preocupar-se com o mundo real. Devemos olhar para a história humana ao fazer política, e a história nos mostra que o homem é naturalmente mau. Se não coagidos por uma força maior, os homens tornam a sociedade um lugar impossível de se viver bem, pois são egoístas, ambiciosos, inescrupulosos; guerreiam entre si, matam, roubam etc...

Isso significava penas uma coisa: o poder político precisava por fim a toda esta maldade inerente da raça humana e é isso o que Maquiavel queria.

Na verdade, não apenas o passado testemunhava a maldade humana, mas o próprio pensador presenciava isso em sua terra natal. Nicolau era italiano de berço e, naquele período, a Itália era um país turbulento. Tratava-se não de uma região unificada, mas de uma porção de pequenos principados governados por tiranos que brigavam entre si pelo controle do território e principalmente do comércio lucrativo do Mar Mediterrâneo.

Todos este problemas prejudicavam a Itália, pois  era um país sem força militar e econômica. Embora ricos, os tiranos gastavam fortunas nas disputas com exércitos mercenários e alianças externas. A falta de um poder central impedia o acúmulo de capitais e a expansão comercial italiana, enquanto os outros países europeus prosperavam.

Foram este elementos que inspiraram o pensamento de Maquiavel. Como homem prático, ele viu, antes de mais nada, a necessidade de um poder unificado, forte e incontestável. Apenas com um soberano único a Itália poderia construir um exército profissional (garantia da soberania) e direcionar as divisas para a atividade comercial da forma correta.

A partir daqui, podemos ter uma visão clara do que o pensador queria. Ele não era um homem amoral como nos fala a tradição. O poder político não significava um refúgio para um egoísta hipócrita que usa os benefícios de sua posição para satisfazer suas  ambições pessoais.  Muito pelo contrário, a visão que Maquiavel tinha do homem, naturalmente mau, mostrava bem o oposto; se o governante fosse um tirano em busca de riquezas e glórias pessoais, na verdade não estaria exterminando o egoísmo e a maldade da natureza humana, mas colaborando com ela. O que buscava-se era uma pessoa que subisse ao poder e lá permanecesse a qualquer custo, pois o poder unificado representava a paz, a ordem, a prosperidade e a soberania, coisas que qualquer homem deseja.

Agora, aqui está a chave. O verdadeiro político percebe que os homens são naturalmente maus e que é impossível satisfazer a todos. Assim, o bom governante é aquele que busca destruir a maldade na sociedade, usando para isso, todos os meios a seu dispor, mesmo que estes meios sejam a força bruta, a espionagem, o suborno e a diplomacia; tudo é válido para manter o egoísmo e a ambição humana sob controle e garantir o bem estar social.

Bem, cabe a cada um de nós pensar se Nicolau Maquiavel estava correto ou não. Tudo depende da visão que temos do homem; se ele é bom ou mau. Mas uma coisa podemos afirmar com certeza: os princípios políticos do pensador eram bastante lógicos e práticos, pois se há duas verdades neste mundo, são estas: "O bem da maioria supera sempre o bem de poucos ou de um." e "É impossível agradar a gregos e troianos."

Bibliografia pesquisada:

O Príncipe - Maquiavel - coleção Os Pensadores.

História da filosofia - Humberto Padovani.

O que é política - Leo Wolfgang Maar - coleção primeiros passos.

 

Thiago Batich dos Santos.

Licenciatura plena em Filosofia - UniSantos.

Mestrando em Filosofia - PUC/SP

 

 

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