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Entrevista

Com Eduardo Palmeira Bandeira,

Psicólogo Clínico Pós-graduado pela Univ. da California-USA.
Prof. de Teorias e Técnicas Psicoterápicas e Arteterapia;

Instrutor e Fundador do
Centro de Meditação Budista de Santa Teresa/RJ;
ex vice-presidente da Sociedade Budista do Brasil.

Colaboração:

Luiz Meirelles

 

1. Qual a relação entre Psicologia e Filosofia? Como a Filosofia pode contribuir para Psicologia e vice-versa?Eduardo : A Psicologia nasceu da Filosofia. Antes, falava-se em Antropologia Filosófica, mas, depois o acumulo de conhecimentos e informações ficou tão grande, que um novo ramo de conhecimento desenvolveu-se, inclusive com algumas vertentes negando a própria filosofia como o Comportamentalismo.

Mas, é inegável a contribuição de alguns filósofos reconhecidos às ideias psicológicas. Desde Sócrates, que enfatizou o Oráculo de Delfos em sua sentença “conhece-te a si mesmo”, muitos outros filósofos desenvolveram temas sobre a Psique e o comportamento humano. É interessante que alguns pensadores atuaram nos dois campos da Psicologia e da Filosofia.

Alguns exemplos são Willian James, com seus Princípios de Psicologia, obra reconhecida como basilar na Psicologia do inicio do séc. XX, e depois seus trabalhos filosóficos sobre o Pragmatismo, corrente da teoria do conhecimento, lançada por Pearce, mas, divulgada e popularizada por ele.

Temos também Karl Jasper, psicoterapeuta e filosofo do Existencialismo.

Atualmente podemos citar, Eugene Gendlin, psicólogo austríaco radicado nos EUA, colaborador de Rogers na Universidade de Chicago, criador da técnica psicoterapêutica da “Focalização” e também filosofo com obra na área da Teoria do Conhecimento.

A Filosofia sendo a base, a terra mãe onde brotou a Psicologia, não pode ser esquecida por esta, que  como Ciência aplicada deve apoiar-se em seus postulados básicos

 

2. Os fundamentos das varias correntes das psicoterapias dialogam com a Filosofia ou há uma tendência de afastamento radical?

 

Em algumas linhas de psicoterapia, existe uma quase fusão entre as duas. Filosofia e Psicologia. Uma linha importante atualmente é a Dasein Análise, que se baseia quase que totalmente na filosofia Existencial de Heidegger, outra, a Logoterapia, de Viktor Frankal, também filósofo existencialista e psiquiatra. Existe uma confluência  na teoria do Encontro Eu-Tu de Martin Buber e a Abordagem Centrada na Pessoa e os Grupos de Encontro de Carl Rogers, embora Rogers negue a influencia de Buber em seu trabalho. Houve aí apenas uma visão semelhante e independente de ambos pensadores

A tendência de um afastamento radical  vejo apenas no Comportamentalismo de Skinner ou no Behaviorismo de Watson, pois nessas linhas a consciência humana é deixada de lado como um epi-fenomeno, pois não pode ser quantificada, e sem quantificação não há Ciência para eles, daí toda a importância ser dada ao comportamento, pois esse é quantificável.

 

3. Você foi aluno e conviveu com Carl Rogers durante muitos anos. Quais as correntes filosóficas que você vislumbra em sua teoria?

 

Fui aluno, parceiro e amigo de Carl e uma vez fiz esta pergunta a ele.

- Carl, quais foram seus mentores para que você construísse suas teorias ?

Ele me respondeu, que não havia nenhum em especial. Seu trabalho surgiu de sua prática e foi se construindo aos poucos. Daí eu o associo ao Pragmatismo de William James, que defende a posição de que é verdade aquilo que funciona. Rogers foi testando as diferentes linhas de psicoterapia existentes na época, 40-50, com ênfase na Psicanálise de Freud, mas constatou que elas eram inviáveis para o trabalho que ele estava desenvolvendo, era diretor de um Centro de Reabilitação para Menores Infratores em Rochester-  NY. A partir de suas atitudes e observações foi desenvolvendo seu sistema próprio, que teve a sua validade comprovada em várias pesquisas que desenvolveu com vários colaboradores, principalmente na Univ. de Chicago para onde foi lecionar e dirigir o Departamento de Psicologia.

O filósofo que ele cita é Kierkegaard. “Ser aquilo que se é”

 

4.  O Oriente e o Ocidente estiveram sempre em diálogo, mas é comum nas academias que os conhecimentos orientais sejam desprezados.

Você considera relevante o estudo comparado entre essas vertentes de conhecimento, tanto na Psicologia como na Filosofia?

 

Sim, só por preconceito ou desinformação, pode-se descartar o conhecimento Oriental em termos de Filosofia. Entende-se a desinformação, pois eram difíceis de se conseguirem  textos confiáveis bem traduzidos, mas o Oriente milênios antes da Grécia, considerada o berço da Filosofia, já trabalhava questões estritamente filosóficas separadas das Religiões . Principalmente na Índia, onde a filosofia era matéria de reflexão importante e já existiam tratados de lógica “Nyaias” centenas de anos antes de Cristo.

O Homem é uma síntese dessas duas posições aparentemente antagônicas, mas na verdade complementares  da introversão Oriental e a extroversão Ocidental, daí a importância dessa integração.

Alguns filósofos ocidentais, como Pitágoras e Schopenhauer, conseguiram descobrir esse manancial de Sabedoria do Oriente e integraram em suas obras conhecimentos daí advindos.

 

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