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Filosofia com Pipoca

Pau que nasce torto se endireita

 Edson Pipoca

Por que um pensador de esquerda dá pra trás?! Bem, há a derrocada do comunismo... não, não! Parece-me algo mais palpável, sabe?! Matéria pura! Eu por exemplo tive um amigo que era o tipo de esquerda de carteirinha, quer dizer, sem carteira, já que não tinha dinheiro pra nada. Um duro!

Foram anos bicudos os do início da era Collor, quem tinha emprego, perdeu; quem não tinha, descobriu o que é perder o que não tem. As durezas da vida, do bolso, da alma formataram o pensamento transgressor de meu amigo, ele sequer bebia coca-cola, e olha que ainda não existia o Dolly. Verdade que a falta de dinheiro também ajudava em sua restrição de alimentos.

 

Mas havia tempo para ler. Quanto tempo?! Vamos dizer que ele teria lido toda a obra de Marx, inclusive seus comentadores. Como disse, eram tempos bicudos e a gente matava as horas de todas as formas.

 

Ele ganhou uma boina, arranjou um blazer mal ajambrado. E a calça, bem, a calça já era bem surrada mesmo. Tava pronto o kit! Virou o intelectual suburbano e chato do momento. Mas era articulado! Isso tinha até um charme, haviam garotas que piravam - numa época em que as minas ainda não faziam isso!

 

Uma chegou à loucura de engravidar dele. Então tudo mudou: ele teve que casar, arrumar qualquer coisa para pagar as contas, ter tv em cores, carro do ano e filhos na escola, sim, vieram outros.

Aí a história é bem conhecida, a economia deu uma melhorada, ele foi melhorando, e melhorando, e melhorando. Aburguesou-se: trocou a casa por um apartamento melhor. Trocou o carro, várias vezes. E até trocou de família. Deu um pé na bunda da mulher e mandou-a discutir os termos com o seu advogado.

Mas não deixou de lutar pelas injustiças, só mudou o foco. Agora acha absurdo o Estado cobrar tantos impostos da classe média. E o Bolsa-família?! Acredita que os miseráveis deveriam trabalhar como ele e pronto! O Estado tem que investir na produção, seu novo mantra. Há quem diga que, ateu, anda rondando certas denominações evangélicas.  

 

Sobre os tempos bicudos e de militância que ficaram para trás?:  faz análise às quintas e às sextas tenta esquecer com um bom italiano à mesa!

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