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O mistério do mal

Wellington Lima Amorim
Doutor em Ciências humanas - UFSC
Mateus Ramos Cardoso
Pós-Graduado em  Filosofia - Univ. Cândido Mendes- RJ


O Mal sempre nos causa medo e espanto e nos repele de nossa própria realidade, seja ela entendida como o mundo no qual nos encontramos ou mesmo a realidade pessoal. Mas e quando somos nós que o realizamos? Será que somos capazes de descrever o Mal explicitando-o com nossas próprias palavras ou ações? O que tem o Mal a ver com Deus? O que tem o Mal a ver conosco?

Este artigo tem a pretensão de abordar tais questões.
Iremos analisar no que consiste o sob a ótica teológica e depois veremos o mal como um produto da evolução pertencente a nossa realidade que pode até mesmo ajudar cada pessoa a se adaptar, amadurecer e crescer.
A complexidade desta temática aparece quando se quer determinar aquilo que é considerado como Mal. No pensamento moderno existe uma relativa concordância em considerar o Mal como sendo algo produzido e exclusivo de cada pessoa. Do ponto de vista humano, o Mal seria tudo aquilo que impede a humanização do homem. Esta perspectiva desenvolvida sobretudo pelo antropocentrismo moderno, só é correta quando corrigida e complementada pela visão ecológica da realidade, que ressalta num plano sistemático a importância básica da relação ser humano-mundo.
Numa perspectiva mais metafísica, a antiga tradição cristã entendia o Mal como ausência ou privação do bem, como por exemplo, Santo Agostinho (privatio boni). Para Santo Anselmo o Mal é a ausência de um bem devido (absentia debiti boni). Por outro lado, Santo Tomás sublinhará que o Mal é a privação de um bem particular (alicuius particularis boni privatio). Essa tradição costuma distinguir o Mal natural, que independe da liberdade humana, e o Mal moral, que é resultante do mau uso da liberdade. Trata-se de uma distinção que corresponde a uma constatação pré-filosófica, que qualquer ser humano poderia fazer, ou melhor, existem males que não são resultados do mau uso da liberdade.
Mesmo que o Mal possa ser causado pela natureza, terremotos, ciclones, secas e outros fatores, existem também males que são consequência do mau uso da liberdade humana. Implicitamente acaba-se por atribuir ao pecado original todo tipo de males, mesmo os cósmicos, físicos e psíquicos. Tudo se transforma numa espécie de castigo. Este vai aparecer como um acidente, fruto de um erro, de uma ruptura, em consequência de uma falta.
É aqui que se encontra o maior problema, que várias abordagens afins procuram iluminar. Não se pode evidentemente atribuir diretamente a Deus os males existentes. Muito menos o Mal moral. Isto seria acusar Deus de uma espécie de jogo duplo: por um lado abomina o Mal e o pecado, mas no fundo os cria. Isto seria maniqueísmo. O que esta teoria quer é abordar, é o mistério do mal de uma maneira menos simplória e mais dialética, onde fique mais claro o papel de Deus e o papel dos seres humanos.
De maneira geral, as teorias querem no fundo ressaltar o Mal como um desafio do ser humano na sua condição presente. Elas simplesmente não aventam o que, eventualmente, teria gerado esta condição. O Mal estaria presente na dinâmica de um processo criador, não como armadilha fatal, mas, como oportunidade do ser humano participar ativamente na obra criadora, desvelando o cosmos escondido no caos e o Bem sendo  capaz de emergir do próprio Mal.
É possível distinguir em três aspectos do Mal referido ao ser humano, mas visto numa perspectiva abrangente, inclui as relações com a natureza, com os outros seres humanos, consigo mesmo, e com Deus: a) O Mal objetivo é causado pelo sofrimento vivido subjetivamente pelas pessoas concretas; b) O Mal subjetivo é experimentado como o sofrimento que se apresenta sob as mais variadas formas, por exemplo: o sofrimento físico, psicológico e espiritual, além de outros; c) O Mal como pecado,  isto é, como mau uso da liberdade.  De fato a experiência do Mal pode constituir tanto um argumento a favor da esperança da salvação como um argumento contra a própria noção de Deus.
Desta forma, a experiência do Mal causa em cada ser humano um problema existencial. É uma experiência que comporta um inquietante desafio de como encarar praticamente a realidade do Mal e do sofrimento. No nível existencial prático, as reações são bastante variadas. Podemos distinguir as seguintes reações básicas: a) Daqueles que não querem enxergar a realidade do Mal e tentam se iludir mediante vários tipos de fuga; b) Daqueles que aceitam o Mal de maneira fatalista; c) Daqueles que adotam uma atitude de rebeldia absurda e estéril; d) Daqueles que procuram situar-se acima do Mal como o desprezo estoico;  e)   Daqueles que com esperança lutam com todos os meios disponíveis, contra os efeitos causados pelo Mal,  tanto no  plano  individual  como no estrutural.
Mas, como explicar racionalmente a existência do Mal? Será que existe uma explicação satisfatória? A teorização sobre o Mal tem sido frequentemente uma forma de fuga da realidade brutal e do sofrimento concreto. Sem duvida que a reflexão teórica sobre o Mal, pode servir de pretexto para a ausência de compromisso na luta contra ele. Porém, esta constatação não deveria levar a um desprezo da dimensão teórica do problema existencial suscitado pela experiência do Mal e do sofrimento. As reflexões tentam prestar um serviço ao discernimento na luta prática contra o Mal e contra o sofrimento, ou seja, a teoria pode estar a serviço da prática. É particularmente complexo a pergunta que a existência do Mal levanta para aqueles que aceitam um Deus que cria por amor e que é providente em relação as suas criaturas. Em nível teológico, o Mal deverá ser visto em contraposição à salvação oferecida por Deus.
A experiência do Mal questiona e perturba o ser humano desde os primórdios da humanidade. Os mitos são expressões dessa preocupação, que procuram interpretar o Mal possibilitando o homem a se posicionar perante ele, e até superá-lo. Há mitos que colocam o Mal antes da criação, identificando-o como o caos primitivo que deve ser vencido pelo Criador. Hoje a libertação se realizaria no âmbito cultural, na repetição dessa luta contra o caos. Por outro lado, muitos veem o Mal como uma realidade posterior à criação, ele é apresentado como uma consequência da desobediência do ser humano ao plano do Criador. A libertação do mal só pode ser vivida na aceitação da proposta salvífica de Deus, diversa da criação.
No âmbito helênico, os mitos trágicos procuram a origem do mal nas ações dos deuses, diante do qual o ser humano se percebe impotente. Nesse âmbito, o Mal é mais forte que a liberdade humana, embora, às vezes com a ajuda dos deuses, o Bem possa  triunfar sobre o mal. Outros mitos colocam a origem do Mal na situação da alma exilada e prisioneira da matéria, ou seja, o corpo. A libertação só acontece quando a alma se livra do corpo e retorna ao mundo originário.
Os posicionamentos modernos face ao desafio do Mal são bastante variados. Desde Kant, para quem o Mal moral consistia na desobediência à lei moral ditada pela razão humana, ou de Hegel, com sua visão do Mal situado, não em Deus, mas, na liberdade humana para escolher o Mal ao invés do Bem. Ou ainda de Leibniz procurando defender Deus da acusação levantada pelo racionalismo, contra a infinita bondade divina.
Se o Mal é simplesmente uma privação do bem (segundo a tradição agostiniana e tomista) conclui-se que o Mal é um não-ser. Deparamo-nos assim com a realidade da finitude da criatura, com os limites que lhes são inerentes. Deste modo o ser humano sofre por causa destes limites. No entanto, eles não podem ser considerados um verdadeiro Mal. Seguindo este pensamento Deus não pode ser acusado de ter criado o Mal, uma vez que as limitações do Ser não são males. Leibnitz, em sua reflexão, não pode negar a realidade do Mal físico, porém ressalta que sua importância não deveria ser exagerada. Deus teria criado, segundo, Leibnitz, o melhor mundo possível, com maior número possível de aspectos positivos junto com o menor número possível de aspectos negativos, ou melhor, o grande Engenheiro, escolheu as melhor das possibilidades. O Mal físico fica integrado nessa melhor hipótese escolhida por Deus para a criação. E o Mal moral? Deus não é causa deste Mal, segundo Leibnitz, ele apenas o permite com vistas a um Bem maior, ou seja, o exercício do desenvolvimento através da liberdade humana.
Com o conceito de evolução, tem sido repensada a doutrina da criação bem como a existência do Mal. Em uma perspectiva evolutiva o mundo está ainda sendo organizado, e se encontra em fase de realização e de vir-a-ser. Se o mundo se encontra até agora inacabado, a imperfeição e conseqüentemente o Mal produzido por esta imperfeição, tem origem neste inacabamento. Desta forma, o Mal se revela no nível da matéria inanimada como uma desarmonia, no nível da vida como um sofrimento, no nível da liberdade humana como sendo o mau uso do livre-arbítrio. No entanto, esta explicação, sugere que o Mal e o sofrimento seja um meio para o desenvolvimento evolutivo da espécie humana. No entanto, a dominação do homem pelo homem e a destruição da dignidade do ser humano, demonstra um perverso excesso deste Mal, ou melhor, uma verdadeira  degeneração patológica inexplicável somente pela evolução.
De fato, as construções filosóficas que procuravam no passado explicar a origem do Mal não gozam na atualidade de muito prestígio, estão sendo substituídas pelas explicações oferecidas pelas ciências. Estas também se posicionam face à realidade do Mal, porém, o termo é substituído por outros, tais como, frustrações, disfuncionalidade, anomia, etc. Convém lembrar, que as ciências empíricas só aceitam como válidas  resultados que podem ser comprovados e verificáveis. Por isso, os behavioristas defendem que o meio ambiente tem uma função positiva no desenvolvimento do ser humano, ajudando-o na sua adaptação. Por isso, é na relação homem e o seu meio que se situa o problema do Bem e do Mal. Se conhecemos adequadamente o meio, podemos através de determinados dispositivos técnicos condicionar nosso comportamento positivamente e mediante ações de reforço podemos colocar o indivíduo na direção desejada, transformando-o em sujeito. Logo, a vitória sobre o Mal se dá mediante a manipulação do comportamento  humano, de modo que este seja orientado positivamente.  Por  outro,  lado, o Mal,  para  a  psicanálise,  situa-se no  interior  do  ser  humano  sendo entendido como inadaptação, como uma realidade inata ao homem, situada no domínio instintivo ou como agressão destrutiva.
É neste momento que o filósofo Blaise Pascal é importante para a nossa reflexão, visto que  ele está inserido em um contexto histórico um tanto peculiar, a Renascença. Este período contém dentro de si uma evidente contradição, que contemporaneamente reaparece quando tentamos definir o que denominamos como pós-modernidade. O homem renascentista experimenta a ruptura com tudo aquilo que representa o período medieval e por outro lado se vê preso na própria continuidade desta mesma tradição, ou melhor, o antigo e o novo se confrontam, e em outras vezes se complementam. Mas o principal fenômeno que merece destaque é a reaparecimento do conceito de humanismo, ou seja, o interesse pelo homem.
Em todas as culturas, as religiões partem da ideia de decadência do homem e no cristianismo não é diferente. A primeira característica que indica a miserabilidade da condição do homem para Pascal é da decadência ou da queda descrita no mito bíblico e da total submissão do ser humano diante de Deus. Logo, conclui-se que a miserabilidade humana é quando o homem se encontra lançado em mundo contingente, encontrando-se entre infinitos, sem um porto seguro. Por outro lado, com esta tomada de consciência, ocorre o surgimento da individualidade e a capacidade de construção de seu próprio destino.
É neste universo que Blaise Pascal destaca duas dimensões de nossa condição humana: a grandeza e a miséria do homem. Estas duas dimensões estão ligadas por dois conceitos que são intrinsecamente necessários no existir humano: O pensamento em contraposição a condição do homem como pecador. Pascal busca conciliar razão e fé. É interessante observar que assim como na pós-modernidade, que tem a presença e o avanço evidente das diversas tecnologias, o Renascimento é palco de uma verdadeira revolução científica. É o gênio de Copérnico, Galileu Galilei, Nicolau de Cusa, Bernadino Telesio e Francis Bacon que ditam esta nova redescrição da realidade. Estas duas perspectivas apresentaram um homem ambíguo, ambivalente, um modo de ser do homem que está em constante conflito existencial, um paradoxo, uma natureza contraditória. O que há de grande no homem? Qualidades que  independem da exterioridade, de qualquer influência externa. Desta forma, posses, bens, diplomas, nobreza, não acrescentam dignidade ao homem, na verdade iludem o homem, engana a todos oferecendo uma felicidade fugidia e contingente. O que garante a real felicidade ao homem é a dimensão grandiosa da natureza humana, é a razão, que o distingue dos outros seres naturais, o que torna o homem verdadeiramente digno.
Ao analisar as perspectivas sobre o Mal, uma das respostas mais relevantes é a dos resultados que nascem justamente do desuso da vontade livre, como causa incontestável humana, ou seja, são os seres humanos responsáveis por este ato. O Mal surge como algo defeituoso no mundo, pela privação e ausência do Bem, mas o ser humano tem a consciência que do fato de que ele é o causador deste defeito, assim os seres humanos se apresentam como imperfeitos. A capacidade de utilizar de maneira correta esta liberdade, está em assumir as responsabilidades e se conscientizar, sem cair no erro e no vício que são os principais vilões do livre-arbítrio humano.
De fato Pascal afirma: “Feliz do homem que se sentir divinamente grande e humanamente pequeno! A tensão dinâmica entre esses dois pólos lhe dará forças e arrojo para se elevar às alturas do Cristo, do Deus-homem e do homem-Deus”. (PASCAL, 2004, p.17). Portanto, o mistério do mal é compreendido na medida em que desvendamos os mistérios de nossa humanidade.







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, A. O livre-arbítrio, 2ª ed. Paulus, São Paulo, 1995.
____________. A Cidade de Deus - contra os pagãos, 3ª ed. Vozes, Petrópolis, 1989.
EVANS, G. Agostinho sobre o mal, 1ª ed. Paulus, São Paulo, 1995, 270 p.
MOSER, Antonio. O PECADO: Do descrédito ao aprofundamento. 3ª. Ed: Petrópolis; Vozes, 1996.
PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo, Martin Claret, 2004.
__________. Pensamentos. São Paulo: Abril, 1979.
RUBIO, Afonso Garcia. UNIDADE NA PLURALIDADE: O ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. São Paulo: Paulinas; 1989.

Paradigmas40

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Colaboração:

Wellington Lima Amorim

 

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Revista Paradigmas

Filosofia, Realidade & Arte

Ano XIII - n. 40

ISSN 1980 - 4342

Maio/Junho – 2013

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