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Entrevista

A grande polêmica entre Heráclito e Parmênides

Lídice Chaves

Estudante do 5º semestre de Licenciatura em Filosofia na UnimesVirtual

Luiz Mendes: Bem, boa noite. Um dos nossos entrevistados do Paradigmas  de hoje é o filósofo Heráclito, uma personalidade das mais instigantes do mundo do pensamento, que lança na próxima semana um novo Epigrama, como sempre abordando as questões relativas ao Cosmos e à alma humana. Conosco também o

filósofo Parmênides que se deslocou de Eléia para atender ao  nosso pedido: discutir sobre permanência e transformação.  Aqui em Éfeso, onde  vive em meio à natureza com sua eminente família, Heráclito recebeu os participantes deste programa em sua casa.

Excepcionalmente, dada a magnitude do tema, também está conosco o filósofo espanhol prof. Julián Marías. Via satélite ele participa desta entrevista. Boa noite a todos.

Luiz Mendes: Meu prezado Heráclito, quer dizer que panta rhei?

Heráclito: É, Luiz, panta rhei,  tudo flui, tudo se move...

LM: O senhor está querendo dizer que o que vemos não é estático, não existe uma permanência nas coisas. Eu olho o mar e vejo o mar...

H: Nas minhas observações eu percebo que à natureza, apraz ocultar-se; é preciso saber ver; o que eu estou tentando dizer é que existe uma impermanência nas coisas; que a mudança que ocorre é sempre uma alternância de contrários, como quente e frio, seco e úmido. A realidade acontece a partir dessa alternância. Vou tentar dar um exemplo: Ninguém entra duas vezes no mesmo rio.

LM: Como assim, Heráclito?

H: É isso mesmo: quando você entrar de novo naquelas águas, elas não serão mais as mesmas e nem você será o mesmo também.

LM (voltando-se para Parmênides): O senhor certamente tem alguma observação que se contrapõe a este pensamento. Estou lendo um dos seus poemas, No Caminho da Verdade, que se opõe a esta alegação de mudança,  quando o senhor diz  que qualquer coisa que se possa falar ou se possa pensar deve ser ; o nada não pode ser... então, a mudança não pode ser pensada. É isso?

Parmênides: É exatamente isso. Poderíamos falar e pensar sobre o que muda  somente se pudéssemos falar ou pensar sobre o que não é. E o que não é,  é o nada. Nãoposso falar sobre mudança. E tem mais, nada pode se transformar em algo diferente do que já é !!

H: Não é bem assim, meu caro Parmênides....

P: Só um instante, com licença, eu quero acrescentar que os sentidos nos fornecem uma ilusão, uma visão enganosa do mundo.

H: Não vá me dizer que isso também são revelações da deusa !?!!

P: Quando eu falei em revelações da deusa, meu caro Heráclito,  eu quis dizer que este não era um conhecimento comum, não era doxa, a opinião dos mortais. Era pensamento de alta qualidade. Insisto: o saber divino só tem espaço pela via do que é – a do ser. A verdadeira realidade, pela necessidade lógica, é imutável e unitária.

LM: Bem professor Marías, o que o senhor nos diz a respeito? Precisamos da sua visão mais ampla. Boa noite.

Julián Marías: Boa noite a todos. É, essa briga é boa e não vai se esgotar por aqui. Mas eu penso que os nossos dois prestigiados filósofos  trazem uma significativa contribuição ao pensamento humano. E têm razão...

Quando  Heráclito diz que tudo flui, é verdade, tudo na natureza está em transformação, precisamos acreditar em nossos sentidos. Todas as coisas estão em mudança, de um estado para outro,  e o fogo é uma troca de todas as coisas, usando as suas palavras. Admiro a audácia do homem que se atreve a descobrir, a manifestar o que estava oculto, latente. Isto aparece com importância também nestas contribuições extraordinárias, meu bom  Heráclito. A kinesis, propulsora do pensamento grego...

H: Obrigado, quero acrescentar que a discórdia é o pai de todas as coisas –polemos pater panton...

JM: É verdade. Agora, Parmênides nos aponta para algo muito interessante, quando diz que  o essencial é a unidade, a imobilidade, a perpetuidade, a consistência absoluta. A descoberta do on é fundamental, do ser como consistência. Nós dizemos que as coisas consistem em - por exemplo: a água consiste em uma combinação de hidrogênio e oxigênio; essa é a grande criação radical de Parmênides, precisamente deter-se no consistir. A tradução mais profunda de on seria consistência: As coisas consistem, têm um modo fixo, permanente, de ser.Me perdoe o amigo Parmênides, mas penso que você toma isto ao pé da letra. Exagerou... embora eu tenha que admitir que você com essas conclusões abre caminho para a lógica dedutiva. 

 LM : (voltando-se para Heráclito).O senhor  poderia explicar a sua frase: hodos odos ano kato mia kai hote "O caminho para cima e o caminho para baixo é o mesmo e único".

H: Eu quero dizer que se pode observar alguma manifestação da physis a partir daquilo que se apresenta a você, o patente, as coisas visíveis de todos os dias. Ou buscar a aletheia, a verdade do latente para o patente. Ou seja, buscar as causas para que aquilo aconteça.

LM: Bem, infelizmente, já passamos do nosso horário. Voltaremos a esse assunto empolgante que faz parte da história do pensamento ocidental. Agradeço muito à sensibilidade e disponibilidade de nossos entrevistados. Agradeço, em especial, ao professor Julián Marías pelas suas ponderações.

 

Bibliografia:

CAMPBELL, Joseph. A epopéia do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

JOSTEIN, Gaarder. O mundo de Sofia.  São Paulo: Cia. Das Letras, 1995.

MARÍAS, Juan. Conferência do curso “Los estilos de la Filosofía”, Madrid, 1999/2000. Edição: Jean Lauand.  Tradução: Elie Chadarevian. http://www.hottopos.com

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Graduado em licenciatura plena em filosofia pela faculdade de filosofia, ciência e letras de Caruaru – FAFICA. Atualmente mestrando em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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