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Questões de filosofia da ciência: um panorama atual

Leonardo Francisco Schwinden

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina

Doutorando em Epistemologia – UFSC

 Resenha de:

Ciência: conceitos-chave em filosofia /Steven French;

Trad.: André Klaudat. - Porto Alegre: Artmed, 2009, 196p.

Ciência: conceitos-chave em filosofia é uma introdução atualizada de filosofia da ciência escrita pelo professor Steven French com base no material utilizado por ele com os alunos do primeiro ano na Universidade de Leeds. O livro é composto de um total de 10 capítulos, relativamente curtos, embora bastante densos em termos da quantidade de teorias analisadas e aspectos considerados de cada uma. As notas ao final de cada capítulo contêm não apenas referências de obras citadas no texto,

mas também endereços eletrônicos de artigos, fotos e outros recursos disponíveis na internet. Quanto ao estilo, o livro segue (confessadamente) a linha de outra famosa introdução escrita por Alan Chalmers, publicada no Brasil como “O que é ciência, afinal?”. O livro de French é também cheio de exemplos históricos e atuais da ciência e adota igualmente um estilo de exposição, por assim dizer, bastante amigável com o leitor, por vezes divertido. Mas existem diferenças vantajosas nesta obra de French, como a inclusão de discussões fundamentais como a do realismo científico e a do construtivismo social, e também da chamada abordagem semântica das teorias; assuntos não contemplados pelo livro de Chalmers por serem posteriores. Ciência se distingue por sua estrutura em torno de questões gerais sobre a ciência, em vez de teorias da ciência, como acontece em Chalmers. Vejamos rapidamente o que French propõe em cada capítulo.

No capítulo 1 - Introdução –o autor identifica como questão básica de seu livro responder: como a ciência funciona? Questão que segundo ele consiste em saber: como os cientistas produzem suas teorias? Como eles as testam? Como eles derivam conclusões dessas teorias sobre como o mundo pode ser? E quais são os papéis desempenhados pelos fatores sociais e políticos na prática científica? Ainda na introdução, French faz uma análise das estratégias disponíveis para se responder a essas questões. A primeira estratégia é a de ouvir o que dizem os próprios cientistas. Mas, segundo o autor, ela logo se revelaria pouco promissora, tendo em vista que os cientistas muitas vezes oferecem respostas diferentes a tais questões. French exemplifica com duas definições incompatíveis entre si, dadas pelo mesmo cientista, ninguém menos do que Einstein. A segunda estratégia é a de observar não o que os cientistas dizem, senão o que fazem. Estratégia esta que é praticada especialmente por alguns filósofos e sociólogos da ciência. Mas, na opinião de French, também não existe clareza sobre como a questão de como as teorias recebem suporte pelas evidências, ou a questão sobre a capacidade das teorias de dizer como o mundo é poderia ser respondida com essa estratégia. Outra restrição à mesma estratégia, segundo o autor, reside no fato de que “a maioria de nós não tem inclinação nem tempo para segui-la”. Por tudo isso, French propõe uma alternativa relativamente mais simples: “analisar estudos de caso, alguns retirados da história da ciência, outros retirados do nosso próprio exame de livros de notas, registros e papéis de cientistas na ativa. Com base em tal exame, podemos descrever ao menos certo aspecto da prática científica e, com isso em mãos, poderemos começar a formular uma resposta para as questões apresentadas”. Note-se que, apesar das diferenças com as outras estratégias, French entende sua alternativa como uma estratégia descritiva, em vez de normativa, seguindo a tendência de que levou “os filósofos a abandonar o jogo de explicar como a ciência deveria funcionar para se concentrar em como ela funciona”. A propósito, French afirma que essa mudança de orientação, “provocou uma lacuna enorme na habilidade do público não-científico de exercer algum controle sobre a agenda da ciência”. Infelizmente, ele nada mais esclarece sobre o que uma coisa pode tem a ver com a outra.

O capítulo 2 - Descoberta - procura responder a questão “como são descobertas as teorias, as hipóteses, enfim, os modelos científicos?” Questão, diga-se de passagem, formulada de forma pouco convencional. Normalmente se costuma dizer que os fatos, a realidade, o mundo e não as teorias, as hipóteses e os modelos é que são descobertos. Em todo caso, a questão é saber como as teorias são desenvolvidas. French parte de uma discussão sobre a “visão comum” em que as teorias são pensadas como resultado de “lampejos criativos” ou “momentos eureca” dos cientistas, associada também à “visão romântica” para a qual as descobertas são frutos do gênio ou talento, que é de natureza supostamente irracional e não analisável. “Essa visão da descoberta é então usada para dar suporte uma distinção importante que aparentemente nos ajuda a entender a prática científica. Trata-se da distinção entre o contexto de descoberta, no qual a descoberta acontece e o contexto no qual se dá a justificação ou o impacto da evidência” explica ele. Conforme tal distinção, o contexto da descoberta, por seu caráter presumidamente irracional, não cabe ser investigado pela filosofia. No máximo, os psicólogos e os sociólogos podem procurar por certos aspectos facilitadores das descobertas, mas sem a pretensão de encontrar regras. Por outro lado, o contexto de justificação “está aberto à investigação pelos filósofos na medida em que cobre o que é racional no âmbito da ciência”. French observa ainda que, além de ser bastante intuitiva, tal distinção de contextos combina com uma explicação geral do método científico conhecida como “hipotético-dedutiva”, segundo a qual os cientistas formulam, não importa como, hipóteses tentando explicar os fenômenos, e depois, procuram deduzir com base nelas possíveis conseqüências observáveis que poderão confirmá-las ou falsificá-las. Na seqüência do capítulo, French apresenta as críticas contra a visão romântica das descobertas, basicamente centradas na alegação de que “existem muito mais coisas envolvidas na descoberta do que um simples lampejo de compreensão”. Coisas como a capacidade de observação exemplificada pelo médico Edward Jenner na descoberta da vacina para a varíola. O capítulo termina com uma explicação detalhada sobre o método indutivo como alternativa para o método hipotético-dedutivo. E ainda, com uma discussão sobre os problemas da explicação indutiva das descobertas científicas. French não demonstra ser favorável a nenhuma das concepções de descobertas analisadas.

No capítulo 3 – Heurística - o autor expõe uma visão alternativa de como as descobertas são feitas. Ele justifica dizendo que “em geral as teorias não brotam simplesmente da cabeça do cientista, como a visão romântica quer fazer-nos acreditar; nem emergem indutivamente das observações, não importando quantas tenhamos feito, nem sob as condições mais diversificadas”. E continua, “Como indiquei no caso de Arquimedes e Mullis, o terreno geralmente está muito bem preparado, e o cientista utiliza-se de uma gama de conhecimentos tácitos e do contexto relevante no qual formular a nova hipótese”. French argumenta que, embora seja evidente que não existem procedimentos algorítmicos responsáveis pelas descobertas científicas, tampouco se pode dizer que as descobertas são produtos apenas do gênio e da criatividade. Em vez disso, parece-lhe que “o domínio da descoberta científica está estruturado de uma certa maneira” e de tal forma a podermos “identificar certos movimentos em nível tanto ‘experimental’ quanto ‘teórico’”. Precisamente é o “estudo dos métodos e das abordagens que são usados na descoberta e na solução dos problemas” o que se entende por Heurística. French passa então a analisar alguns exemplos de descoberta científica para apontar procedimentos heurísticos que supõe estarem envolvidos. Assim, no plano mais imediatamente experimental, o autor analisa o caso de Benjamin Franklin, que depois de constatar similaridades entre os fenômenos produzidos em máquinas eletrostáticas da época e os raios atmosféricos, lançou e depois testou a hipótese de que estes últimos nada mais eram do que uma forma de descarga elétrica. “Aqui parece que temos uma forma aparentemente simples de descoberta científica, baseada no passo heurístico de notar certas semelhanças entre os fenômenos relevantes” aponta French. A atuação de tal procedimento sobre fenômenos e ao mesmo tempo sobre teorias é outra possibilidade destacada por French. Segundo ele, o apontamento de similaridades entre fenômenos e entre teorias anteriormente tidas como distintas conduziu, primeiramente à unificação da eletricidade com o magnetismo e subseqüentemente a identificação da luz com um campo eletromagnético. Num plano ainda mais teórico, outro procedimento heurístico possível é aquele que atende ao chamado princípio da Correspondência Geral. French assegura, aparentemente contra Thomas Kuhn, que “se olharmos as chamadas revoluções científicas mais de perto, poderemos de fato descobrir coisas em comum suficientemente, através da ruptura, o que nos permite dizer que não só houve progresso, como também é possível discernir como teorias subseqüentes foram construídas com base em suas predecessoras”. French explica que apesar de algumas coisas mudarem, digamos em um nível mais elevado, várias delas permanecem as mesmas em níveis inferiores. “Então, um novo movimento heurístico seria o de focar nesses elementos e construir a sua nova teoria nessa base (...) – faça isso corretamente e você estará se candidatando a um Prêmio Nobel!” assegura ele. Uma outra manobra heurística para ele óbvia é a de procurar por falhas numa teoria e verificar se, ao retificá-las, é possível chegar a uma teoria nova ainda melhor. Nesse sentido, French aponta a inconsistência interna como uma fonte de falhas nas teorias. E ilustra isso com uma análise sobre a inconsistência na teoria do átomo do Bohr. Por fim, French faz referência ao procedimento heurístico consistindo na construção de modelos a fim de promover as descobertas. Por modelos ele entende objetos ou conjuntos de objetos em que é possível explorar correspondências com o sistema que estamos estudando. Os modelos segundo ele são ainda uma forma de se estudar os fenômenos sem a necessidade de abarcar todos os aspectos, portanto, são simplificações, muitas vezes idealizações daqueles fenômenos. “é claro que a chave para a construção de modelos é não idealizar demais, senão o modelo não vai representar a situação!” ele observa. Os modelos podem ainda ser físicos ou meramente conceituais. Exemplos de modelos científicos discutidos por French são: o pêndulo simples, o modelo das bolas de bilhar para o gás, o modelo da gota líquida do núcleo atômico e o modelo de DNA produzido por Crick e Watson.

O capítulo 4 - Justificação - trata das diferentes teorias da filosofia da ciência propostas para determinar o tipo de relação que se estima haver entre os dados experimentais e as teorias ou modelos. French analisa primeiramente a concepção de que os dados verificam as teorias. Ele relata que essa concepção foi originalmente desenvolvida pelos positivistas lógicos no início do século XX, para permitir distinguir a física da metafísica, a ciência positiva da “especulação caprichosa”. O critério da verificabilidade prescreve que para uma hipótese ser científica ela precisa ser verificável. Quer dizer, ela deve pelo menos possibilitar a especificação de situações que, se observadas, a verifiquem. Apesar de permitir uma distinção razoável entre a ciência de outras atividades humanas, existe uma dificuldade importante em torno desse critério e que motivou sua reconceituação. Quando acontece a “verificação” ou observação de um fenômeno previsto pela teoria, podemos concluir com clareza que a teoria foi verificada, isto é que ela é verdadeira? Não, explica French, “a próxima predição pode não ser observada e a hipótese seria então considerada como falsa”. Mais do que isso, “uma hipótese nunca pode ser completamente verificada”. Dizer que uma teoria foi verificada, significa dizer que ela é verdadeira, que ela descreve como o mundo é de fato. Porém, para podermos afirmar isso teríamos que tomar conhecimento de todos os fatos que demonstram confirmar a teoria, o que é impossível. Procurando contornar essa dificuldade, os positivistas lógicos, especialmente Rudolf Carnap, começaram a mudar sua ênfase na verificação para a sua confirmação. Dizer que os dados confirmam as teorias pareceu ser uma boa estratégia a princípio, porém não tardou a apresentar dificuldades. Como o fato de que o aumento no número de observações favoráveis a uma determinada teoria nem sempre significa aumento de sua confirmação e, de outro lado, pelo fato de existirem casos em que poucas observações são consideradas satisfatórias para confirmação da teoria. Uma outra concepção sobre o papel dos dados na justificação das teorias é aquela proposta por Karl Popper, contemporâneo e crítico dos positivistas lógicos. French observa que, assim como os positivistas, Popper foi fortemente influenciado na sua concepção de ciência pelos impressionantes sucessos científicos de Einstein. Todavia, o que para Popper tornava a teoria da relatividade uma teoria científica, não era tanto o fato de observações a confirmarem, mas o fato de que as observações a poderiam ter refutado. A predição parecia clara: ou a luz das estrelas se curvaria em volta do sol ou não se curvaria. Essa característica, no entanto, não era manifestada por outras concepções contemporâneas e que eram pretendidas como científicas. Conforme relava French, a teoria marxista da história, a psicanálise freudiana e a psicologia adleriana incomodavam Popper porque elas pareciam ser apoiadas pelo que ele chamou de um “incessante fluxo de confirmações”, isto é, parecia não haver meios de determinar se eram falsas. Em resumo, elas eram infalsificáveis. French segue observando como Popper é um representante do modelo-hipotético dedutivo, e que para o autor falsificacionista, a questão da descoberta não é uma tarefa que compete à filosofia. No que tange à justificação, para Popper nunca é possível comprovar a verdade de uma teoria, apenas a sua eventual falsidade. French arremata apontando uma série de dificuldades na concepção falsificacionista, centradas basicamente no fato de que nem sempre quando os dados observacionais se mostram inconsistentes com uma teoria que lhe diz respeito, é sinal de que a teoria - e não as observações - é falsa. O capítulo termina como um exercício de estudo solicitando que o leitor tente caracterizar o método científico e depois responda à alegação de que não existe tal método, numa citação de Paul Feyerabend.

O capítulo 5 – Observação – é de certa forma uma continuação do capítulo anterior. Procura investigar quão seguros são os fatos, questão fundamental tanto para a defesa do verificacionismo quanto do falsificacionismo. Como de costume, French começa como uma análise da visão comum sobre a observação. A pressuposição de que duas pessoas vendo o mesmo objeto nas mesmas circunstâncias vêem a mesma coisa. Em seguida, French apresenta uma série de exemplos que parecem derrubar essa idéia: imagens como o famoso cubo de Necker ou a do pato/coelho que admitem múltiplas leituras ou observações. “O que você vê não é determinado simplesmente pela luz que incide em sua retina. Isso é determinado por uma série de outros fatores: pela sua disposição mental, pelas suas crenças antecedentes, pelas minhas sugestões, por exemplo” afirma French. Segundo o autor, observar em microscópios, em telescópios ou imagens geradas por Raios X exige o desenvolvimento de uma habilidade em que pressuposições sobre o que deve ser observado desempenham um papel crucial. Ele sugere que isso também parece valer para as observações normais que fazemos. Mas se as observações dependem de orientação prévia de teorias e pressuposições, quão seguras elas são? “Talvez elas sejam tão seguras quanto o conhecimento, as crenças, as pressuposições, etc. que as informam” pondera French. Mesmo enunciados de observação que tomamos como seguros e objetivos podem ser falsos. Um exemplo famoso é o enunciado de que Vênus visto da Terra não muda de tamanho, a olho nu todos podemos concordar com ele, mas ao apontarmos um telescópio para ele iremos ver claramente uma mudança. Mas então eis que surge um problema: se as observações são usadas para avaliar as teorias, mas as próprias observações também se apóiam em teorias, onde está o terreno firme? Segundo French, temos que admitir com Popper de que não há tal terreno firme, existe uma convenção sobre o que são as observações, mas que pode ser, e de fato é, revista à medida que o conhecimento progride. Sem que isso signifique uma perda na confiabilidade do conhecimento científico, pelo fato de não estar assentado sob uma base inalterável.

Em resposta ao capítulo anterior, na primeira parte docapítulo 6 - Experimento - French procura responder a questão de como é possível distinguir observações reais de artefatos. Por exemplo, “como é que Galileu conseguiu convencer seus interlocutores de que as pequenas estrelas ao redor de Júpiter eram reais e não artefatos, quando ele não tinha uma teoria do telescópio e não podia explicar para seus críticos como ele funcionava? A resposta é bem simples, afirma French “ele apontou seu telescópio para algum outro lugar e as estrelinhas sumiram”. Dentre as estratégias que os cientistas dispõem para avaliar os dados observacionais, French destaca a de examinar e calibrar o equipamento para verificar se ele reproduz ou representa precisamente os fenômenos conhecidos, antes de empregá-lo nos deconhecidos. Embora reconheça que no caso de Galileu isso não tenha sido suficiente pelo fato de que seus opositores acreditavam que os objetos terrestres e celestes obedecem a leis diferentes. Outra estratégia é usar a regularidade dos resultados para indicar que as observações são seguras. Diz French, “se você vê a mesma coisa dia após dia sob diferentes circunstâncias, então são grandes as chances de que você não está vendo um artefato ou um blip aleatório, mas algo que realmente está lá”.  Quanto às luas de Júpiter observadas por Galileu, French destaca que “é difícil argumentar que aqueles pequenos pontos de luz que ele via eram somente defeitos das lentes do telescópio quando eles se movem em volta do planeta de uma maneira regular, e por fim, previsível”. Todos esses fatos nos mostram, segundo French, que a observação é muito mais do que um simples abrir de olhos. Seguindo Ian Hacking, observa que ela “não é só um representar passivo do mundo, mas também engajar-se ativamente nele, e em alguns casos intervir ao, por exemplo, preparar uma amostra, marcar e destacar características pelas quais se está interessado, e assim por diante. Desta forma, a experimentação entra como um componente crucial para o fornecimento de uma base confiável para o conhecimento científico”. French ressalta ainda que os experimentos não são importantes apenas para esclarecer teorias. Há casos em que eles, conforme expressou Hacking, parecem ter vida própria. Ainda fundamentado em Hacking, French aponta alguns experimentos e observações desse tipo. Dentre eles, os movimentos brownianos, que foram finalmente explicados por Einstein um bom tempo depois de terem sido descobertos. Portanto, conforme French, a relação entre teoria e experimento nem sempre é de cima para baixo, isto é, da teoria para o experimento. Na segunda parte do capítulo, French discorre sobre o papel dos modelos para a justificação das teorias. Tal papel, segundo ele, é o de fazer uma mediação entre as teorias, naturalmente abstratas e complexas, com os dados observacionais, tipicamente mais simples. French prevê que “a força falsificadora de uma observação será atenuada pelo modelo, já que pode ocorrer de que os fenômenos idealizados terem culpa, e não a teoria”.  Como conseqüência, ele diz que “isso obviamente torna a justificação muito mais complicada, na medida em que o impacto das observação torna-se incerto”. Na parte final, o autor fala ainda de dois tipos de modelos mais básicos, ligados mais propriamente às observações do que às teorias: os modelos de fenômenos e os modelos de dados. Sem, no entanto, oferecer os devidos exemplos desta vez. Como conclusão, French defende que depois de reconhecermos toda essa mediação dos modelos, a questão da justificação resulta menos simples do que se suspeitava inicialmente. “Contudo”, assevera, “se quisermos descrever precisamente a justificação na ciência, acomodar tudo isso é uma tarefa que teremos que enfrentar como filósofos da ciência”.

A problemática do capítulo 7 – Realismo - é saber até que ponto teorias científicas bem testadas são capazes de dizer coisas verdadeiras em relação a como é o mundo. French aponta três respostas possíveis: O realismo padrão segundo o qual as teorias nos dizem como o mundo é, tanto nos seus aspectos observáveis, quanto inobserváveis. Em segundo, o instrumentalismo de acordo com o qual as teorias nos dizem como o mundo é, somente em seus aspectos observáveis. Em terceiro, o empirismo construtivo para o qual as teorias nos dizem como o mundo é em seus aspectos observáveis e como o mundo pode ser em seus aspectos inobserváveis. A primeira resposta, isto é, o realismo científico é o foco do capítulo. Frech expõe o argumento mais famoso em favor do realismo, o argumento sem milagres ou argumento derradeiro, atribuído a Hilary Putnam. Em seguida apresenta contra-argumentos. Primeiro, a famosa Meta-indução Pessimista, de Larry Laudan (embora French não o cite). Depois, French faz uma exposição bastante clara do importante problema da subdeterminação da teoria pela evidência, que em muitos casos parece inviabilizar a tomada de uma postura realista. São feitas rápidas digressões a respeito do modelo nomológico-dedutivo de explicação e do critério de simplicidade, pressupostos ou invocados pelos realistas. O último problema apresentado por French é o da petição de principio que o Argumento Derradeiro parece incorrer ao pressupor justamente uma das coisas que estão em disputa. Por fim, French conta como os anti-realistas resolvem a questão do sucesso da ciência de maneira a dispensarem o conceito de verdade das teorias.

No capítulo 8 - Anti-realismo - French inicia fazendo um resumo do capítulo anterior, depois do qual passa a discutir as alternativas ao realismo científico. Em primeiro lugar, Frech faz uma apresentação – aliás, bastante competente – do empirismo construtivo que, segundo ele, é a forma de anti-realismo dominante atualmente. French reconhece que num primeiro momento essa posição pode parecer um tanto extravagante devido à sua concepção bastante restritiva do que é observável. Todavia, ela se mostra bastante capaz de enfrentar os obstáculos que o realismo aparentemente não consegue, a saber, o problema da meta-indução pessimista, a subdeterminação da teoria pelas evidências e a explicação do sucesso da ciência. Apesar da simpatia de French pelo empirismo construtivo, ele não deixa de reconhecer suas limitações: relacionadas de um lado, ao caráter convencional da distinção observável/inobservável e, de outro, à sua explicação darwinista para o sucesso da ciência. Embora, talvez French não seja suficientemente claro quanto a essa segunda limitação do empirismo construtivo. O realismo de entidades é apresentado como uma alternativa menos radical. Diversamente ao realismo científico padrão, não se preocupa em determinar se as teorias científicas são verdadeiras. Por outro lado, diferente do empirismo construtivo não concorda que só podemos assumir como reais aquilo que podemos observar diretamente. Em vez das duas opiniões, defende que podemos assumir como verdadeiro ou real somente a existência de entidades diretamente observáveis ou não, desde que possamos interagir com elas de alguma forma e através delas, produzir outros fenômenos. Outra alternativa ao realismo defende que “tudo o que podemos conhecer a respeito da realidade é capturado pelas equações que representam relações entre as coisas, cujas verdadeiras naturezas nunca podemos na verdade conhecer” descreve French. Essa posição insiste na existência de mudanças radicais no nível de entidades inobserváveis ao longo da história da ciência, mas defende “a retenção de certas estruturas nesse nível”, razão pela qual é chamada de realismo estrutural. Note-se que é uma espécie mais atenuada de realismo em relação às teorias. Como nos casos anteriores, existem também objeções ao realismo estrutural, dentre as mais importantes, é a possibilidade de mostrar que as estruturas também mudam pelo que “teremos perdido uma das principais vantagens de optarmos pelas estruturas, que é responder à Meta-indução Pessimista”. Na conclusão, French esclarece ter apresentado não todas, senão as principais posições relacionadas com a questão do realismo; e ainda, que se restringiu em esboçar os principais argumentos prós e contras cada posição, sugerindo que cada uma tem um apelo próprio. Por último, o autor propõe um exercício de estudo envolvendo principalmente as evidências que o leitor é capaz de apontar para a crença na existência de entidades inobserváveis, como bactérias, genes e elétrons. 

O capítulo 9 trata da questão da independência ciência em relação ao contexto social em que as teorias são desenvolvidas. French identifica que basicamente há dois sentidos em que podemos dizer que a ciência é dependente de seu contexto socioeconômico e político. Um sentido que, segundo ele, não solapa a objetividade. Neste caso, pode-se dizer que os fatores sociais podem determinar o que as ciências investigam. Por exemplo, a influencia de interesses sociais como o lucro pode determinar a destinação de recursos em pesquisas de um tipo de doença em vez de outro menos lucrativo. Os fatores sociais podem determinar ainda como a ciência investiga. Por exemplo, para os padrões éticos de nossa sociedade é errado realizar experimentos potencialmente perigosos com cobaias humanas. Poderia não ser assim em outra sociedade. E ainda, os fatores sociais podem determinar o conteúdo das crenças científicas. Tal afirmação não solapa a objetividade desde que se reconheça essa influência atue apenas na descoberta ou invenção da teoria. No entanto, se ela afirma que a influência ocorre também na aceitação ou na rejeição da teoria, isto é, “se o que conta como evidência é assim determinado (...) então poderemos bem concluir que a objetividade da ciência foi erodida ou talvez solapada completamente”. Nesse sentido, French afirma ainda que “se o conteúdo de teorias é determinado dessa maneira (...) então a visão da ciência como objetiva, neutra quanto a valores, de algum modo situada acima do contexto sócio-economico e político, precisa ser abandonada. As teorias científicas e os fatos científicos precisariam então ser vistos como socialmente construídos”. Na seqüência, o autor fala rapidamente sobre o Programa Forte de Sociologia do Conhecimento Científico como uma expressão do construtivismo social. Para quem os fatores sociais atuam como causas da credibilidade das crenças científicas, independente de serem assumidas como racionais, ou irracionais, verdadeiras ou falsas. Isto é, esses fatores estariam envolvidos em ambos os casos. Sendo assim, a credibilidade de certas crenças e procedimentos científicos é uma construção social e até mesmo os fatos seriam, na medida em que dependem de interações sociais específicas e historicamente contingentes. French avalia que “essa é uma posição bastante radical de se adotar e que produz uma forma de relativismo, pois, se os fatos dependem do contexto, então em um contexto social diferente conduzirá a um conjunto diferente de fatos e de um conhecimento científico diferente”. Tudo bem, se com isso French não queira sugerir que resultaria em mundos diferentes. Mais à frente o autor afirma que, para o Programa Forte, as crenças científicas estariam no mesmo nível que crenças de outros contextos. Mas quem garante que o relativismo metodológico recomendado por eles para a Sociologia do Conhecimento Científico, implica necessariamente em relativismo ontológico e epistemológico? Aliás, como é muito freqüente pressuporem seus críticos, inclusive French. Na seqüência, são apresentados problemas do relativismo que incluem a reflexividade, isto é o fato da própria alegação relativista estar sujeita ao relativismo, e também, ao fato do relativismo, segundo o autor, bloquear a mudança, tanto política quanto científica e ao fato do relativismo bloquear a comunicação e o entendimento entre diferentes comunidades sociais! Embora French não se preocupe em determinar se tal alegação é procedente, ele pelo menos reconhece que a objeção normalmente pressupõe a questionável inferência da melhor explicação. O capítulo termina com o reconhecimento do próprio French de que o assunto é complexo, embora tenha dado a nítida impressão de pressupor que o relativismo do Programa Forte é incompatível com a idéia de objetividade e racionalidade da ciência, pressuposição, diga-se de passagem, bastante questionável.

O capítulo 10 – Parcialidade de Gênero – examina como a parcialidade de gênero enquanto fator social específico poderia comprometer a objetividade científica. Primeiramente, French discute acusações de parcialidade menos comprometedoras à objetividade das teorias como a de que a parcialidade de gênero pode se manifestar na proporção de homens e mulheres na ciência, também na escolha do assunto que a ciência investiga ou ainda na forma com a qual a ciência investiga. Então, French passa a analisar um tipo de acusação que lhe parece solapar a objetividade “de uma maneira muito mais grave”: a de que a parcialidade de gênero pode determinar o conteúdo das crenças científicas, isto é, o que elas dizem sobre o mundo pode ter parcialidade de gênero. Neste caso, não se trataria de uma descrição objetiva do mundo, no sentido de estar livre de interesses ou pressuposições, senão, moldada (construída) justamente por tais fatores. French analisa primeiro um caso concreto em que a descrição dos primatologistas a respeito da organização social de sagüis e primatas pareceu ser influenciada por pressuposições de gênero mantidas pelos cientistas. O segundo caso discutido por ele envolve o mesmo tipo de influência sobre o conteúdo das teorias sobre a evolução hominídea. Grosso modo, a perspectiva machista coloca “o homem caçador” como o protagonista da evolução, ao passo que a perspectiva feminista coloca “a mulher coletora” como tal. Situação que segundo French representa um bom exemplo de uma subdeterminação das teorias pelos dados, uma vez que as duas teorias podem acomodar bem os dados disponíveis. French pergunta: que lição é possível tirar como base em demonstrações como essas de parcialidade de gênero? Algumas feministas concluem, segundo ele, que não existe maneira objetiva de selecionar as teorias e que as decisões científicas sempre refletem seu contexto social. O que é problemático, segundo ele.  Primeiro, porque pode diminuir a capacidade das evidências de forçarem justamente a mudança de teorias. Outro problema, é que talvez seja demasiado pressupor que todas as teorias científicas contêm parcialidade de gênero. French defende que as teorias da química, na engenharia e especialmente na física são visivelmente menos sujeitas a esse tipo de influência quando comparadas como as teorias da primatologia e da paleoantropologia. Por outro lado, é possível admitir ao menos que algum conteúdo das teorias é parcial quanto ao gênero e que é preciso fazer um exame para expor tais pressuposições. Mas há também o problema, conforme sugere French, de como convencer os defensores de visões parciais quanto à objetividade de suas alegações se você adota uma posição relativista. “Talvez, então, não haja um meio-termo e sejamos simplesmente forçados a escolher uma compreensão em detrimento de outra” conclui. Embora admita imediatamente, na conclusão do capítulo, que “as coisas não são preto no branco aqui e nem deveriam ser” e que suas respostas aos argumentos dos relativistas ou contextualistas sociais não são definitivas, “ou mesmo talvez algo que fosse minimamente adequado como resposta”. Fica claro que o autor tende a ver a perspectiva relativista com desconfiança, sobretudo porque na sua visão ela parece ser incompatível com a idéia de objetividade e racionalidade da ciência. E ele mesmo confessa seguir os filósofos da ciência para os quais “alguma forma de objetividade pode ser alcançada”. Cabe saber se todo relativismo é mesmo incompatível com a idéia de objetividade. Quem sabe também não é parcial a visão assumida por French de que os interesses sociais atuam apenas para distorcer o conhecimento, e que a objetividade não é mantida ou alcançada também por esse tipo de interesses? De todo modo, a insegurança manifestada por French em relação a esses assuntos é bastante compreensível, dado que se encontram em pleno debate atualmente.        

Por fim, no Apêndice ao livro, o autor disponibiliza um guia de revisão com perguntas e respostas. E ainda, uma lista de obras introdutórias e outra sobre coletâneas de artigos clássicos da área de filosofia da ciência. Infelizmente, pouquíssimas dessas obras estão disponíveis em português no presente momento. Situação que torna o livro de French, ao lado de outras boas introduções de filosofia da ciência produzidas no país, um recurso bastante precioso ao leitor brasileiro interessado em entender melhor a ciência.

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