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Os limites histórico-sensório-cognitivos do conhecimento a partir de Kant e Hegel

Thiago Pinto dos Santos

Estudante do 6º semestre de Filosofia - UNISANTOS

 De acordo com Francis Bacon, pensador inglês do séc. XVII, os entes seriam constituídos por leis de funcionamento, conceito este equivalente à essência aristotélica e à idéia platônica. Essas leis seriam cognoscíveis, desde que o homem se libertasse de todos os elementos integrantes de sua subjetividade,

isto é, sua sensibilidade, sua cultura e suas heranças históricas, pois estes apenas atrapalhariam o conhecimento, uma vez que  o tornariam parcial e relativo. A esses elementos que atrapalham o conhecimento, Bacon dá o nome de ídolos.

Ao elaborar sua teoria – que até os dias de hoje fundamenta a ciência – Bacon inseriu-se numa tradição metafísica – a saber, um movimento filosófico cujo objetivo é chegar ao suposto elemento imutável e eterno que daria ser aos entes da physis.

No século XVIII, Kant e Hegel estabelecem a partir de suas teorias, elementos condicionantes para o conhecimento. O primeiro postula uma estrutura sensório-cognitiva própria do homem e, por conseguinte, insuperável. Quanto ao segundo, afirma que cada homem, ao pensar, o faz em acordo com as circunstâncias histórico-culturais nas quais vive. 

Segundo Kant, seria por meio dessa estrutura sensório-cognitiva – sensibilidade e entendimento, que o homem se aproximaria da realidade e tentaria apreendê-la. A esse respeito, afirma Kant em sua Crítica da Razão Pura:

 [...] há dois troncos do conhecimento humano que talvez brotem de uma raiz comum, mas desconhecida a nós, a saber, sensibilidade e entendimento: pela primeira objetos são-nos dados, mas pelo segundo são pensados. (KANT 1999, p. 67).

 A sensibilidade é aquela que possibilita a apreensão imediata dos objetos - intuição. Estas permitem que o homem perceba um determinado objeto, distinguindo-o do todo no espaço e determinando-o num período de tempo. Com isso, as variáveis de espaço e tempo não são mais postuladas como constituintes do objeto, mas sim do sujeito.

Quanto ao entendimento, Kant afirma que a ele cabe a logicização dos objetos dados ao homem por meio da sensibilidade. A partir das categorias que constituem o seu entendimento, o sujeito pensa acerca dos objetos apreendidos, seja para simplesmente afirmar sua existência, seja para estabelecer relações entre eles.

Se a partir de Kant pode-se dizer, portanto, que o homem não pode superar o ídolo da tribo (estrutura sensório-cognitiva), com a filosofia de Hegel é possível afirmar que o homem, no processo cognitivo, é impossibilitado de superar o ídolo da caverna (constituição histórica subjetiva).

Segundo Hegel, o movimento histórico é o movimento do espírito absoluto. Este seria constituído por  constante afirmação e  negação – tese e antítese; do conflito entre esses dois pólos resultaria a síntese, elemento unificador que reuniria em si características da tese e da antítese, tornando-se uma nova tese. Destarte, a história estaria num ininterrupto processo de desenvolvimento qualitativo, de modo que um sistema filosófico estabelecido no séc. XV seria inferior em qualidade se comparado a um sistema do séc. XVIII. Acerca da tradição em seu movimento diz Hegel:

[...] não é estátua de pedra, mas é viva, e continuamente se vai enriquecendo com novas contribuições, à maneira de um rio que engrossa o caudal à medida que se afasta da nascente. O conteúdo desta tradição é formado por tudo quanto o mundo espiritual produziu, e o espírito universal nunca permanece estacionário. (HEGEL, 1996, p. 88)

Cada indivíduo, segundo a teoria hegeliana, estaria limitado a certas circunstâncias históricas, isto é, seria o resultado do seu tempo e contribuiria, com a sua individualidade, para expandir e/ou solidificar o espírito absoluto. 

Um pensador do século XV estaria condicionado a pensar a partir das teses em vigência nesse século, seja para manter essas mesmas teses ou ainda para refutá-las de modo que partir de um ponto diverso e ignorar completamente o próprio tempo não seria possível. Assim, um homem do renascimento pensa como se pensa no renascimento, e qualquer movimento filosófico desse homem se dá a favor das teses renascentistas ou ainda, contra elas.

Essas idéias inauguradas por Kant e por Hegel abrem um amplo espaço de possibilidades para o crescimento da filosofia contemporânea. Nietzsche, no séc. XIX retomará as duas concepções supracitadas a fim de desconstruir por completo os sistemas tradicionais e provocar o surgimento de um novo modo de entender a questão do conhecimento, a saber: ao aproximar-se do objeto, o sujeito está impregnado de sua sensibilidade e de sua singularidade - sua história, família, cultura, educação etc.

 

Referência bibliográfica:

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

Paradigmas 36

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 Expediente

Paradigmas
Ano IX - Nº 36
Filosofia, Realidade & Arte
ISSN 1980-4342

Janeiro/Fevereiro 2010

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