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Mitologia e Filosofia: um debate                  

Um dos fatos mais interessantes na história da humanidade como um todo é tentar explicar o início de tudo, os acontecimentos do cotidiano e as possibilidades de entender a vida pós-morte. Em todos os tempos sempre ocorreu aos homens perguntar-se sobre sua origem e a do próprio universo que os cerca.

 

Estas respostas ou tentativas de respostas às questões acima levantadas nunca foram privilégio de todos, sempre “especialistas” de todas as matizes, dos sacerdotes, aos reis, os papas, ou mesmo os cientistas, sempre tiveram o privilégio de tentar deter o “saber responder”, estes questionamentos.

Desta forma, sempre ocorreu a interrogação do “de onde viemos” e “para onde iremos” e as respostas se sucedem no transcorrer do tempo. Quando falamos que são perguntas ou explicações que estão presentes no transcorrer da evolução da vida racional do ser humano, queremos dizer que, qualquer tribo perdida em qualquer lugar do planeta de uma maneira ou de outra vai apresentar essas inquietações, basta ver as tribos indígenas na América do Sul, seus mitos tentam explicar a natureza e seus fenômenos.

 “O mito é uma narrativa imaginária que estrutura e organizam de forma criativa as crenças culturais. As divindades constituíam os personagens que, pelas divergências, intrigas, amizades e desejo de justiça, explicavam tanto a natureza humana como os resultados das guerras e os valores culturais”. (Cassiano Carde in  “Para Filosofar”, p. 9 Ed. Scipione).

Portanto, o fantástico entra em cena para dar conta de um real, isto é, a realidade antes de tudo explicada dentro de uma super dimensão.

A questão é que temos que entender o processo mitológico como uma estrutura  de entendimento da realidade, não só no passado mas também no presente.

Em dois momentos, séc. XVIII (com o Iluminismo) e séc. XIX (com o hegelianismo e o positivismo), encontramos a idéia de que superar a perspectiva mitológica é para a humanidade uma evolução. Desta forma, a reflexão mitológica pertenceria a culturas primitivas ou mesmo atrasadas.

Na antropologia, a perspectiva de uma explicação mítica é defendida por Lévi-Strauss como bricoleur, isto é, a produção de objetos  partindo de pedaços e fragmentos de outros objetos. Desta forma, a realidade vai interligando-se paulatinamente ao conjunto de suas crenças. O pensamento mítico vai estruturando-se como experiências, relatos e narrativas.

Desta forma, o pensamento mítico, como afirma Chauí (ob. cit. p.161/162), apresenta três características principais.

 função explicativa: o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permanecem no tempo. Por exemplo, uma constelação existe porque, no passado, crianças fugitivas e famílias morreram na floresta e foram levadas ao céu por uma deusa que as transformou em estrelas; as chuvas existem porque, nos tempos passados, uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendo unir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza, fazendo suas lágrimas caírem sobre o mundo, etc.;

 função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de idade, de poder, etc) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões. Por exemplo, um mito como o de Édipo ( Quando Édipo nasce, um vidente, Tirésias, prevê que o menino matará o pai e casará com a mãe. Apavorado, o rei Laio – o pai – manda matar Édipo. O escravo que deveria matar o menino sente piedade e o lança num precipício sem verificar se está ou não morto; e entrega ao rei o coração de uma corça, como se fosse o de Édipo. A criança não morre e é recolhida por um pastor. Este, por sua vez, a entrega a um outro rei, que, idoso, lamentava não ter filhos. Ao crescer, Édipo suspeita que não é filho de seus país adotivos e sai à procura dos pais verdadeiros. No caminho, vê uma batalha entre um grupo numeroso e um pequeno; coloca-se ao lado deste ultimo e mata o chefe do outro grupo  - seu pai, Laio. Chegando a sua cidade natal, fica sabendo que um monstro estava devorando as virgens e só interromperá a matança se alguém decifrar um enigma que propõe. Édipo decifra o enigma. Como recompensa, recebe a rainha em casamento. Casa-se com Jocasta, sem saber que se tratava de sua verdadeira mãe, e com ela tem filhos. A profecia se cumpre. A cidade será castigada com a peste e, ao tentar combate-la, pedindo aos deuses que lhe digam o que a causou, Èdipo fica sabendo, por Tirésias, que matou o pai e casou-se com a mãe. Fura os olhos e exila-se, enquanto Jocasta se suicida.) existe (com narrativas diferentes) em quase todas as sociedades selvagens e tem a função de garantir a proibição do incesto, sem a qual o sistema sociopolítico, baseado nas leis de parentesco e de alianças, não pode ser mantido;

função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo de oferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária.”

                Desta forma, o mito é explicado dentro de uma realidade, porém não podemos deixar de destacar o processo mitológico na Grécia antiga. O mito entre os gregos assume um papel diferente na sua dimensão do fantástico, pois este, é mais humano, está interligado à vida cotidiana das pessoas, o que não encontramos no Oriente por exemplo. Esta é uma questão primordial, a filosofia nasce debatendo com o mito – não vamos aqui entrar no debate sobre se a filosofia é um derivado maior da perspectiva mítica da realidade – e, portanto, apresentando uma estrutura racional sobre a realidade na sua perspectiva de construção de uma cosmologia.

FILOSOFIA E MITO – o debate.

Portanto, pensar sobre o debate entre mitologia e filosofia é, antes de tudo, procurar as razões que se diferem nas duas explicações de realidade.

A mitologia é uma narrativa que conta de maneira fantástica o passado, já á filosofia tem uma preocupação com o passado, o presente e o futuro. Desta forma, o refletir filosófico é, antes de tudo, uma perspectiva de totalidade de tempo.

Quando o mito narra a origem das coisas apresenta toda uma genealogia com rivalidades e alianças entre as coisas, as forças divinas que são sobrenaturais ou mesmo personalizadas. Já na filosofia encontramos uma busca explicativa sobre como a natureza determina um elemento único de formação da cosmologia. Assim, os primeiros filósofos pré-socráticos, estão procurando o elemento norteador do Universo e da vida na terra, água, fogo, ar, átomo, etc.

Assim, o mito fala em Urano, Ponto e Gaia e a reflexão filosófica apresenta o céu, o mar e a terra. Sendo que diferentemente da explicação mitológica onde estes elementos surgem por casamentos a filosofia os explica, como um processo de separação de quatro elementos (úmidos, seco, quente e frio ou água, terra, fogo e ar).

A autoridade religiosa do narrador permite a este não se importar com as possíveis contradições narrativas do processo mítico. A filosofia por sua vez não permite contradições, fabulações, mas sim o discurso lógico, sem contradições, a autoridade não esta no filosofo, mas sim na razão que esta permeando o pensamento lógico.

Chauí destaca ainda que alguns elementos tais como, as viagens marítimas, a invenção do calendário, a invenção da moeda, o surgimento da vida urbana, a invenção da escrita alfabética e a invenção da política, foram fundamentais para o surgimento da filosofia na Grécia Antiga.

O filósofo é aquele que tem como ponto de partida para a análise da realidade a razão, esta com seus princípios e regras determina um critério para o seu processo de evolução analítica. Somente desta maneira a reflexão filosófica poderá trabalhar com a contradição e com o pensamento universal. Será ainda parte do refletir filosófico a duvida constante e a tendência para a generalização. Entendemos generalização como é apresentado por Chauí (ob. cit. p.33) ; “mostrar que uma explicação tem validade para muitas coisas diferentes porque, sob a variação percebida pelos órgãos de nossos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades.”.

Porém, não podemos esquecer, os próprios filósofos na Grécia Antiga utilizaram a mitologia ou a alegoria para o processo de reflexão filosófica. É o caso de Platão e a alegoria da Caverna ou “mito” da Caverna.

A leitura da realidade passa por vários caminhos, tanto no passado como no presente, desvendar os mitos, tornar possível os caminhos da razão humana é o papel do filosofar no passado e no presente, pois só assim, poderemos construir uma episteme  capaz de estruturar uma totalidade.

MITO E MODERNIDADE

O mito na modernidade passa por um processo de transformação? Esta é uma questão que ainda esta em aberto na nossa sociedade. Dizíamos acima, no transcorrer do texto, que o mito é antes de tudo uma explicação fantástica sobre uma realidade, porém sabemos, que na Antigüidade o processo mitológico unificava a comunidade, pois, este se apresentava sempre de uma maneira coletiva.

De outra forma, é também na Antigüidade que percebemos o caráter dogmático dos mitos. Portanto, uma verdade que não necessita ser; provada e muito menos aceita um questionamento a verdade que esta apresentando.

Esta perspectiva na Mitologia Antiga é uma referência fundamental no seu debate com a filosofia, enquanto esta parte de uma procura racional a mitologia apresenta-se nos seus aspectos gerais dogmaticamente.

A filosofia ganhou este debate no passado? como, o mesmo, esta presente hoje no nosso dia a dia?

O positivismo de Augusto Comte, explicava a evolução da humanidade em três aspectos; o mítico (teológico), o filosófico (metafísico) e o científico. Para os positivistas o último estágio seria o coroamento da razão humana. Por sua vez seria o cientifico a única forma de possibilidade de se chegar a uma verdade.

Mas o próprio endeusamento da razão, não seria também um mito? Esta razão, tudo resolve? O homem também não necessita de paixões como dado de uma realidade e sua explicação?

Estas questões são colocadas de uma maneira fundamental no debate entre mitologia e razão filosófica nos dias de hoje. Isto é, será que o fantástico não é utilizado na atualidade como parte de explicação desta mesma realidade?

O mito não é por demais utilizado como senso comum no aspecto político-social? Esta é uma questão central e devemos estar preparados para procurar responde-la. Hoje o nosso cotidiano está cercado de aspectos mitológicos em vários sentidos, onde, as crenças são uma primeira referencia não crítica da realidade para diversas pessoas.

O “super – homem” racionalista é também uma figura mítica, porém, incapaz de solucionar questões básicas que estão presentes na realidade.

O papel dos meios de comunicação no sentido de divulgar e principalmente forjar novos heróis na luta do bem e do mal é fundamental para analisar nossa questão central. Neste aspecto, o texto das professoras Maria Lucia de Arruda Aranha  e Maria Helena Pires Martins, são fundamentais, para uma ampliação do nosso tema.:

 “Hoje em dia, os meios de comunicação de massa trabalham em cima dos desejos e anseios que existem na nossa natureza inconsciente e primitiva.

Os super heróis dos desenhos animados e dos quadrinhos, bem como os personagens de filmes como Rambo, Os justiceiros e outros, passam a encarnar o Bem e a Justiça e assumem a nossa proteção imaginária, exatamente porque o mundo moderno, com inflação, seqüestros, violência e instabilidade no emprego, especialmente nos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais um lugar extremamente inseguro. Artistas e esportistas podem ser transformados em modelos exemplares: são fortes, saudáveis, bem alimentados, têm sucesso na profissão – sucesso que é traduzido em reconhecimento social e poder econômico - , são excelentes pais, filhos e maridos, vivem cercados de pessoas bonitas, interessantes e ricas. Como não mitifica-los?

Até a novela, ao trabalhar a luta entre o bem e o mal, está  lidando com valores míticos, pré-reflexivos, que se encontram dentro de todos nós. Aliás, nas novelas, o casamento também é transformado em mito: é o grande anseio dos jovens enamorados, é a solução de todos os problemas, o apaziguamento de todas as paixões e conflitos. Por isso quase todas terminam com um verdadeiro festival de casamentos.

Só que os astros transformados em mito são heróis sem poder real: têm somente poder simbólico no imaginário da população.” (ob. cit. p. 64).

Sendo assim, está é uma questão básica; descobrir aonde se localiza o processo mitológico hoje. Sabemos que o mito moderno não ocupa ou não têm o mesmo papel existencial do passado, isto é, do mito primitivo. Talvez como um reflexo da estrutura produtiva do sistema em que vivemos, o mito moderno não mais se apresenta como algo que contextualize a totalidade de uma realidade.

E aqui entramos em uma outra questão muito pertinente de nossa atualidade, isto é, seria possível percebermos essa totalidade? A resposta é sim, caberá a razão filosófica aprofundá-la e ao mesmo tempo, determinar uma livre escolha de cada um sobre quais serão seus modelos de mitos ou de vida aceitáveis.

foram fundamentais para o surgimento da filosofia na Grécia Antiga.

O filósofo é aquele que tem como ponto de partida para a análise da realidade a razão, esta com seus princípios e regras determina um critério para o seu processo de evolução analítica. Somente desta maneira a reflexão filosófica poderá trabalhar com a contradição e com o pensamento universal. Será ainda parte do refletir filosófico a duvida constante e a tendência para a generalização. Entendemos generalização como é apresentado por Chauí (ob. cit. p.33) ; “mostrar que uma explicação tem validade para muitas coisas diferentes porque, sob a variação percebida pelos órgãos de nossos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades.”.

Porém, não podemos esquecer, os próprios filósofos na Grécia Antiga utilizaram a mitologia ou a alegoria para o processo de reflexão filosófica. É o caso de Platão e a alegoria da Caverna ou “mito” da Caverna.

A leitura da realidade passa por vários caminhos, tanto no passado como no presente, desvendar os mitos, tornar possível os caminhos da razão humana é o papel do filosofar no passado e no presente, pois só assim, poderemos construir uma episteme  capaz de estruturar uma totalidade.

MITO E MODERNIDADE

O mito na modernidade passa por um processo de transformação? Esta é uma questão que ainda esta em aberto na nossa sociedade. Dizíamos acima, no transcorrer do texto, que o mito é antes de tudo uma explicação fantástica sobre uma realidade, porém sabemos, que na Antigüidade o processo mitológico unificava a comunidade, pois, este se apresentava sempre de uma maneira coletiva.

De outra forma, é também na Antigüidade que percebemos o caráter dogmático dos mitos. Portanto, uma verdade que não necessita ser; provada e muito menos aceita um questionamento a verdade que esta apresentando.

Esta perspectiva na Mitologia Antiga é uma referência fundamental no seu debate com a filosofia, enquanto esta parte de uma procura racional a mitologia apresenta-se nos seus aspectos gerais dogmaticamente.

A filosofia ganhou este debate no passado? como, o mesmo, esta presente hoje no nosso dia a dia?

O positivismo de Augusto Comte, explicava a evolução da humanidade em três aspectos; o mítico (teológico), o filosófico (metafísico) e o científico. Para os positivistas o último estágio seria o coroamento da razão humana. Por sua vez seria o cientifico a única forma de possibilidade de se chegar a uma verdade.

Mas o próprio endeusamento da razão, não seria também um mito? Esta razão, tudo resolve? O homem também não necessita de paixões como dado de uma realidade e sua explicação?

Estas questões são colocadas de uma maneira fundamental no debate entre mitologia e razão filosófica nos dias de hoje. Isto é, será que o fantástico não é utilizado na atualidade como parte de explicação desta mesma realidade?

O mito não é por demais utilizado como senso comum no aspecto político-social? Esta é uma questão central e devemos estar preparados para procurar responde-la. Hoje o nosso cotidiano está cercado de aspectos mitológicos em vários sentidos, onde, as crenças são uma primeira referencia não crítica da realidade para diversas pessoas.

O “super – homem” racionalista é também uma figura mítica, porém, incapaz de solucionar questões básicas que estão presentes na realidade.

O papel dos meios de comunicação no sentido de divulgar e principalmente forjar novos heróis na luta do bem e do mal é fundamental para analisar nossa questão central. Neste aspecto, o texto das professoras Maria Lucia de Arruda Aranha  e Maria Helena Pires Martins, são fundamentais, para uma ampliação do nosso tema.:

 “Hoje em dia, os meios de comunicação de massa trabalham em cima dos desejos e anseios que existem na nossa natureza inconsciente e primitiva.

Os super heróis dos desenhos animados e dos quadrinhos, bem como os personagens de filmes como Rambo, Os justiceiros e outros, passam a encarnar o Bem e a Justiça e assumem a nossa proteção imaginária, exatamente porque o mundo moderno, com inflação, seqüestros, violência e instabilidade no emprego, especialmente nos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais um lugar extremamente inseguro. Artistas e esportistas podem ser transformados em modelos exemplares: são fortes, saudáveis, bem alimentados, têm sucesso na profissão – sucesso que é traduzido em reconhecimento social e poder econômico - , são excelentes pais, filhos e maridos, vivem cercados de pessoas bonitas, interessantes e ricas. Como não mitifica-los?

Até a novela, ao trabalhar a luta entre o bem e o mal, está  lidando com valores míticos, pré-reflexivos, que se encontram dentro de todos nós. Aliás, nas novelas, o casamento também é transformado em mito: é o grande anseio dos jovens enamorados, é a solução de todos os problemas, o apaziguamento de todas as paixões e conflitos. Por isso quase todas terminam com um verdadeiro festival de casamentos.

Só que os astros transformados em mito são heróis sem poder real: têm somente poder simbólico no imaginário da população.” (ob. cit. p. 64).

Sendo assim, está é uma questão básica; descobrir aonde se localiza o processo mitológico hoje. Sabemos que o mito moderno não ocupa ou não têm o mesmo papel existencial do passado, isto é, do mito primitivo. Talvez como um reflexo da estrutura produtiva do sistema em que vivemos, o mito moderno não mais se apresenta como algo que contextualize a totalidade de uma realidade.

E aqui entramos em uma outra questão muito pertinente de nossa atualidade, isto é, seria possível percebermos essa totalidade? A resposta é sim, caberá a razão filosófica aprofundá-la e ao mesmo tempo, determinar uma livre escolha de cada um sobre quais serão seus modelos de mitos ou de vida aceitáveis.

Por José Sobreira Barros Júnior

Mestre em Filosofia-PUC/SP

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