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Georges Canguilhem – o centenário de nascimento do “médico-filósofo” francês

“Trabalho, segundo a etimologia, é tormento e tortura.

Tortura é sofrimento executado para obter revelação.

As doenças são os instrumentos da vida pelas quais o vivente

 (vivant) —  desde que se trate do homem –

sente obrigado a confessar-se mortal”.

               Georges Canguilhem,

Ecrits sur la médicine,

Seuil, Paris, 2002, pg 48.

 Se nós abrirmos o livro de John Lechte, 50 pensadores contemporâneos essenciais: do estruturalismo à pós-modernidade (Difel, 2002), no verbete dedicado ao “médico-filósofo” Georges Canguilhem,saberemos que ele nasceu em 4 de junho de 1904--seu pai foi alfaiate--,em Caustelnaudary,sudoeste da França. Com 20 anos é admitido na prestigiosa instituição francesa da rue d’Ulm,École Normale Supérieure,tendo como companheiros Sartre,Nizan,Lagache e Aron. Após obter o diploma de professor concursado de Filosofia -- l’agregation --, começa a cursar a Medicina em 1936, Toulose, pois “ esperava dela, justamente uma introdução a problemas concretos. A medicina nos parecia e nos parece ainda uma técnica ou uma arte situada na confluência ( carrefour) de várias ciências, mais do que uma ciência propriamente dita”.(O Normal e o Patológico, Forense, RJ, 5ª edição revista (?) e aumentada, 2002, pg 16). Deste modo, Canguilhem afirma que para ele a Medicina não pode ser considerada uma ciência(epistéme), pois não existiria ou mesmo encontraríamos um real conhecimento conceitual que designaríamos com o pomposo e nobre nome, na cidade do saber, de “ciência médica”. Em 1985, ele profere num colóquio internacional uma conferência em Perúgia, Itália: “O estatuto epistemológico da Medicina”; e, dirá após um rigoroso jogo argumentativo, que esta racional “máquina de curar” pode ser pensada e traduzida como sendo “une somme évolutive de sciences appliquéesuma soma evolutiva de ciências aplicadas”.Durante a guerra trabalha na Universidade de Estraburgo, onde ministra um curso sobre Normas e o Normal, que se tornaria à base de sua tese de doutorado em Medicina, Ensaios sobre alguns problemas referentes ao normal e o patológico, em 1943. Doze anos depois sucede a Gaston Bachelard que se aposenta na Sorbonne, assumindo então a cadeira de História e Filosofia das Ciências e de Diretor do Instituto de História das Ciências e Técnicas. .Georges Canguilhe morreu no dia 11 de setembro de 1995, com 91 anos.Em1966 é editado pela P.U.F, a tese de 1943 de Medicina defendida em Clemond-Ferrand, acrescida de um novo texto reflexivo comemorando os 20 anos de sua tese, Novas reflexões referentes ao normal e ao patológico (1963-1966). É o conhecido livro O Normal e o Patológico, “a mais significativa obra de Georges Canguilhem”, nas palavras  de seu famoso discípulo Michel Foucault.

   Há 20 anos  foi comemorado o aniversário de 80 anos de Canguilhem.Para homenagear a data, a Revue de Métaphysique et Morale pede a Foucault um artigo. Esgotado pela Aids—foi seu último texto--, envia um antigo artigo modificado do prefácio que tinha escrito para a editora de Nova York,Zone Books,em 1978, da mais significativa obra do “filósofo-médico”. O título do artigo bem traduz as preocupações teóricas e práticas do homenageado: “A vida: a experiência e a ciência”.

   Vejamos então o segundo parágrafo do artigo: “Donde um paradoxo: esse homem, cuja obra austera, deliberadamente bem limitada e cuidadosamente dedicada a um domínio particular em uma história das ciências que, de qualquer forma, não se apresenta como uma disciplina a grande exibicionismo, esteve de certa forma presente nos debates dos quais ele próprio sempre evitou participar (...). Mais: em todo debate de idéias sempre precedeu ou sucedeu o movimento de 1968, é fácil reencontrar o lugar daqueles que direta ou indiretamente, haviam sido formados por Canguilhem “. Como o autor de As palavras e as coisas bem lembra, os dois campos filosóficos antagônicos que marcaram o panorama francês e que tinham diferentes balizas teóricas; de um lado, a fenomenologia (Sartre, Merleau-Ponty), ou seja, ”uma filosofia da experiência, do sentido, do sujeito” e de outro, “uma filosofia do saber, da racionalidade e do conceito (filiação de Cavaillés, Bachelard, Koyré  e Canguilhem).”  Em suma, este último moveu-se no interior de um saber no qual “a uma filosofia do sentido, do sujeito e do vivido opôs uma filosofia do erro, do conceito de vivente, como uma outra maneira de abordar a noção de vida( Michel Foucault, Ditos e Escritos II, Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento, Forense,R J, 2000, pg 366).

      O Normal e o Patológico  abarca uma rigorosa análise histórica, e como tais conceitos medicais foram desenvolvidos na fisiologia e biologia no decorrer dos séculos XIX e XX. Ora, no século XIX, a medicina era vista como a ciência (epistéme) das doenças, enquanto a fisiologia era a ciência da vida (bíos). Com o trabalho teórico-prático de Claude Bernard em fisiologia experimental, a medicina então desenvolveu uma abordagem quantitativa da diferença entre o normal (saúde) e o patológico (doença).Entre os dois conceitos encontramos uma relação de continuidade—a boa saúde e a doença (hiper ou hiponormal). Como o próprio Canguilhem lembra com ironia, o médico freqüentemente esquece que é paciente que procura aquele que poderá restabelecer a sua saúde. Em outras palavras, a distinção entre fisiologia e patologia só pode ter um “significado clínico”.

    Novas reflexões referentes ao normal e ao patológico (1963-1966), que completa o livro de 1943, colocam em discussão o conceito de social e de vital acoplados ao de normas. Encerremos o comentário do livro com as suas últimas e prudentes palavras: “Diremos que o homem sadio não se torna doente enquanto sadio. Nenhum homem sadio torna-se doente, pois ele só é doente quando sua saúde o abandona e, nesse momento, ele não é  sadio. O homem dito sadio não é, então, sadio. Sua saúde é um equilíbrio conquistado à custa de rupturas incoativas. A ameaça da doença é um dos  constituintes da saúde” (pág, 261, tradução modificada).

  O outro livro que publicou foi à tese de Filosofia e saiu pela editora Vrin em 1955, A formação do conceito de reflexo nos séculos XVII e XVIII. A tese teve Gaston Bachelard como patron (relator e orientador). Os outros livros publicados foram editados a partir de artigos, resenhas e conferências. Podemos citar então: Estudos de história e de filosofia das ciências, O conhecimento da vida e Ideologia e racionalidade nas ciências da vida. Na França, o livro mais recente consiste de cinco artigos que foram originalmente publicados em revistas de difícil acesso ou esgotadas; lançado em junho de 2002, na coleção Champ Freudien dirigida pelo genro e a filha de Jacques Lacan. Título da obra: Écrits sur la Médecine. A editora Forense logo publicará este livro e eu levianamente presumo que sairá como Escritos sobre a Medicina. A mesma editora Forense do Rio de Janeiro é a responsável pela calamitosa e desleixada publicação em 1978 de O normal e o patológico. No momento, o livro encontra-se na 5ª edição revista (?) e aumentada, com um posfácio de Pierre Macherey, precedido de uma apresentação de Louis Althusser. Coloco um certeiro e mais do que justo ponto de interrogação como sendo uma edição revista, pois a primeira e a última são exatamente iguais – exceto o duplo aumento dos artigos -- e nelas encontramos pelo menos uns 50 erros, entre falhas de traduções e faltas de cuidados editoriais. Informo alguns tristes exemplos dos vários descuidos. O termo francês vivant é traduzido por ser vivo e creio que seria mais adequado vivente ou vivo. Na página 21, 2ª linha, encontra um fabrica (fait) uma doença, e o correto seria desenvolve uma doença. Ou então, na pág 24, linha 15, uma tradução ao pé da letra ferindo nossos delicados ouvidos, ou seja, um gritante galicismo que qualquer gramática francesa nos corrige. Em francês: mais non sans idées, na tradução atual—mas não sem idéias, e a correta e simples seria, mas com idéias. Na página 91 deparamos grotescamente com um restaurante e, de fato, deveríamos encontrar a palavra restaurado (restauré). Aos novos acréscimos, escreve erroneamente que os textos de Macherey e de Althusser saíram na revista La Pensée em 1972. A revista está correta, mas de fato saiu em 1964, no número 113. Nos Estados Unidos a obra do “filósofo-médico” é bem conhecida, e em 1994 saiu um livro A Vital Rationalist-selected writings from Georges Canguilhem ,edited by François Delaporte. O título sintetiza bem a postura filosófica e epistemológica de Canguilhem como um racionalista vital—o livro de 480 páginas cobre e seleciona os escritos do autor.

   Neste começo de século XXI, penso que os médicos finalmente se interessem e lessem com seriedade os livros de filosofia da medicina -- o nosso mercado editorial ainda é parco de títulos se não for quase nulo a produção --, sobretudo os livros de Canguilhem — lembremos também de sua atitude ética e política, que combateu pelo movimento de resistência contra o governo colaboracionista de Vichy. Assim sendo, os jovens médicos agora devem refletir e pensar a respeito do homem (antropos) como um ser holístico,  emocional e doente, enfim, numa prática autêntica e legítima da esperada humanização da medicina.

   Michel Foucault morreu em 25 de junho de 1984. Creio que no final do ano escolar francês e americano teremos eventos que lembrarão e comemorarão estas justas e importantes efemeridades mundiais.      

Prof. Doutor Wlater Jayme Zingerevitz

*Artigo  publicado originalmente na Revista Cult, edição 81, ano VI

 

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