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Newton e Voltaire

Embora a obra de Newton fosse divulgada e respeitada nos meios científicos da Inglaterra, ela ainda não havia encontrado, após a sua morte, um historiador que a divulgasse às demais pessoas letradas, mas leigas no assunto.

 O principal divulgador da física de Newton no continente europeu foi o poeta francês Voltaire que, embora conhecedor da filosofia escolástica, mal conhecia a física cartesiana. Ele não era ateu, mas influenciado pelo deísmo, que acolhia seu ideal de racionalidade com o qual via a natureza, e destacou-se como um combatente mordaz do conservadorismo eclesiástico, científico e político.

Depois de um exílio na Inglaterra, onde manteve contato com os deístas, Voltaire voltou à França e, movido inicialmente por um interesse religioso, começou a ler Óptica e os Principia Mathematica de Newton. Voltaire, mais do que os deístas ingleses, estava interessado em saber como atuava a nova figura da divindade que, altivamente, comandava o movimento das inúmeras esferas em confronto com o Deus cruel e vingativo do Antigo Testamento, do Deus feito homem, humilhado, crucificado e desprendido a ponto de ser transformado, figurativamente “em comida na forma de massa de pão” pelo cristão católico.

 O poeta francês tinha, também, um interesse mais geral sobre o sistema de Newton e, assim sendo, iniciou um paciente trabalho de aprendizado que o levasse a decifrar, além da matemática, a filosofia e os postulados científicos da obra e transmiti-los, o mais claramente possível, na forma de Elementos ao público leitor, convencido que estava de que “a ciência da natureza é um bem de todos os homens”.  

 Aquilo que é conhecido como deísmo voltariano representa o que Voltaire julgou estar sutilmente implícito na filosofia de Newton, donde resultam algumas teses de negação em relação aos dogmas cristãos, como a recusa do pecado original e a providência particular. Por trás de tudo, o que realmente estava subentendido era um determinismo não declarado, baseado na idéia de que o conhecimento da natureza é que libertaria o homem das crenças, das superstições e da ignorância do mundo que o cerca: como Newton, pelo juízo da época, tinha desvendado seus grandes princípios, Voltaire decidiu investir-se da incumbência de historiador das obras de Newton.

 Nelas, os cometas e os eclipses não eram avisos ou sinais da ira divina, mas simples conseqüência da mecânica celeste, matematicamente previsível, o que não dispensava a regência de um maestro divino: o Deus matemático e relojoeiro estava apenas nascendo.

 A própria descrição feita por Voltaire da religiosidade de Newton nos faz concluir que ele acreditava, também, na existência de um Deus pessoal, pois, se Ele fosse apenas um Deus cósmico, distante e racional, a sua relação com os homens seria estéril e sua providencia totalmente divorciada da religiosidade humana, o que para Newton seria inaceitável. O Deus pessoal era harmônico ao Deus racional, como as duas faces da mesma moeda.

 Segundo Newton, se o vazio existe por si mesmo, tal não acontece com a matéria. A causa criadora da matéria é a mesma que determina tanto a sua gravitação como o movimento dos planetas num determinado sentido e numa trajetória direcional em relação ao corpo (de maior massa) em função do qual gravitam. Em linguagem científica atual, poderíamos dizer que, na metafísica newtoniana, existem desígnios infinitamente variados que regem a matéria, desde o macrocosmo às sub partículas do núcleo atômico. O Maestro Criador não abdica de comandar toda a parte visível e invisível de sua grande orquestra.

 Voltaire percebeu que a gravidade (que introduziu o primeiro elemento formal na ciência física) era metafísica por si mesma como, aliás, o é até hoje, pois ainda não se definiu como se dá a sua "transmissão instantânea” a qual supera a velocidade da luz, impossível pela teoria da relatividade. 

Nota-se na filosofia newtoniana uma clara relação de causa e efeito. Os desígnios seriam as causas livres – a vontade divina - que possibilitam estabelecer o equilíbrio de toda a natureza física, equilíbrio este representado, no campo da razão, pelas leis que regem a mecânica terrestre e celeste, em todas as suas escalas, como dons divinos. Isto não implica num universo estável, ao contrário, só a substancia é imutável enquanto a matéria nele existente segue numa eterna movimentação transformadora, que por sua vez também segue um plano divino. O determinismo existente na natureza não afronta a fé, mas complementa-a, tal como no determinismo metafísico de Descartes.

Ao velho argumento dos ateus de que, se Deus existe, ele fez um péssimo trabalho (em face do sofrimento humano diante das doenças, guerras e cataclismos), responde-se que, apesar de tudo isso, a maioria das pessoas vive sem desejar a morte, porque tem fé e esperança em (outro) mundo melhor.  De fato, a verdadeira fé não pressupõe comodidade nem recompensas e, como prova disso, se olharmos a vida de Jesus e dos santos até mesmo delas se afasta. A religião tem essa particular característica de oferecer ao homem uma assinatura, um passaporte para a felicidade, ainda que futura que se alcança com a fé. Como a probabilidade, que foi resumida  por Blaise Pascal como: “Se ganhar ganha tudo, se perder não perde nada”.

 Newton defendia aquilo que poderia ser chamado de “liberdade de Deus” ou seja, Deus age segundo a Sua vontade e a Sua vontade é a razão. Ele não age movido por necessidades, (embora não se furte em atende-las), pois se assim o fizesse seria um Criador com vontade passiva ou, em termo físicos, reativa, reflexa. Resultado: ele não seria mais Deus.

Como disse Voltaire, em seus Elementos da Filosofia de Newton. “Só nos falta então ser sempre felizes para acreditarmos em Deus”.

 Roberto César de Castro Rios

Economista e exerce a função de Auditor Fiscal da Receita Federal na Delegacia Especial de Assuntos Internacionais em São Paulo. É Mestre em História da Ciencia pela PUC-SP, e tem especial interesse pela História da Física e sua relação com a Religião.

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