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Sartre e o teatro de situações

Neste ano de 2005 o mundo comemora o centenário de Jean-Paul Sartre, considerado um dos maiores filósofos de todos os tempos. Tendo atuado

 energicamente como romancista, filósofo, crítico literário, dramaturgo e  roteirista de cinema, participou de diversas questões políticas de nossa época, concentrando de maneira marcante os aspectos essenciais de um tempo de oscilação, hesitação e decisão, em sua filosofia.e engajamento político.

Dentre as inúmeras características de Sartre, optamos por discorrer aqui, sobre o Teatro de Situações, posto que foi através deste, que Sartre tornou-se realmente conhecido, embora este aspecto seja ainda um pouco negligenciado por estudiosos de sua filosofia.

O teatro do século XX é tido como teatro político, por ter havido vasta conscientização por parte dos dramaturgos, no que concerne aos problemas enfrentados pelo homem neste século. Entre estes, podemos destacar: guerras, massacres, genocídios e outros tipos de violência cometidas pelo homem contra seres de sua própria espécie. Sartre vivera no período entre duas guerras mundiais, tendo participado de uma delas como soldado meteorologista, e posteriormente, como prisioneiro em um campo de concentração nazista, no qual permaneceu por um ano, até conseguir fugir com vida, retornando a Paris.

Mas a guerra mudara a muita gente, e Sartre, em particular.A liberdade experimentada por seu individualismo antes da guerra acabara-se e ele, necessitava de um projeto de ação que incluísse todos os homens. Iniciando sua carreira de dramaturgo, Sartre optou por um novo gênero, o qual ele chamou Teatro de Situações, que ele considera o único adequado à nossa época. Partindo do pressuposto de que o homem é livre em determinadas situações, ele faz escolhas o tempo todo, dentro dessas situações.O termo foi primeiramente usado por Karl Jaspers, o qual define situações-limites como situações extremas, que nos colocam em face dos fatos mais inelutáveis da existência humana: o sofrimento, o acaso e a morte.Dessa forma, diversas situações que ocorrem durante nossa existência, são consideradas situações-limites, e ao nos depararmos com elas, temos de fazer nossas escolhas.É importante lembrar, que ao fazer uma opção, o homem abre mão de todas as outras escolhas possíveis, e será totalmente responsável pela decisão tomada e suas eventuais conseqüências.Para Sartre, o verdadeiro teatro deveria ser um apelo a um público ao qual se está ligado por uma comunidade de situação.Durante a guerra, essa comunidade era então, a França que estava sob domínio dos nazistas.Assim Sartre precisava encontrar uma forma hábil para falar de temas como a insubmissão e liberdade, pertinentes àquele momento. E acabou por descobrir no teatro um recurso ideal para ilustrar seu pensamento.O ponto primordial do teatro de situações viria do movimento do homem em direção à sua livre escolha, à formação de um caráter e da livre decisão em empenhar uma moral e toda uma vida.No decorrer de nossas vidas, nos deparamos constantemente com situações-limite que nos obrigam a tomar decisões imediatas e viver suas conseqüências, o que implica afirmar, que em todos esses casos, está em questão o exercício da liberdade do homem. Sendo assim, não é possível na obra de Sartre, falar em liberdade, sem se referir à situação.Esta é o obstáculo que o homem deve transpor, e sem esse obstáculo, não há liberdade, já que para se afirmar, ela precisa de algo que a contrarie.

“Os heróis são liberdades presas em armadilhas, como todos nós. Quais são as saídas? Cada personagem não será mais do que a escolha de uma saída e não valerá mais do que a saída escolhida” (SARTRE, 1947, P.215).

Dessa forma, o teatro deve mostrar o momento de livre escolha, dando enfoque à ação dos personagens.O dramaturgo deve escolher temas e situações com as quais o público se identifique, e que estejam grandemente relacionadas com a vida real, para que essas situações possam tocar o expectador. Sartre ressalta ainda, a função dos atores como algo fundamental. Suas palavras e gestos devem conter grande ènfase, com o objetivo de impressionar o expectador, o máximo possível.

“O autor sabe que sua peça não atingirá o público, a não ser que ele venha a impressionar suficientemente a imaginação do expectador, a sensibilizá-lo, sacudí-lo, surpreendê-lo, violentá-lo”.(JEANSON, 1987, P.96).

Dentre as várias peças escritas por Sartre encenadas até hoje em vários países do mundo, podemos destacar: “Entre Quatro Paredes”, “Mortos sem Sepultura”, “As Moscas”, “As mãos sujas” e “Os seqüestrados de Altona”. No cerne de suas peças, encontram-se arraigadas quase todas as suas teses filosóficas, além de Sartre tê-las utilizados para chamar a atenção para diversos problemas no que concerne à condição humana.

Mônica Marcondes de Oliveira Santos

Mestranda em Filosofia pela Puc-SP

 

BIBLIOGRAFIA:

JEANSON, F. Sartre.Rio de Janeiro: José Olímpio Editora, 1987.

MACIEL, L.C. Sartre: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

SARTRE, J.P. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997.

__________ Qu’est-ce que la literature? Paris: Gallimard, 1947.

__________Mortos sem Sepultura.Lisboa.Editorial Presença, 1965.

__________Situations II. Paris: Gallimard, 1948.

THODY, P. Sartre. Rio de Janeiro: EdiçõesBloch, 1971.

 

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EDUCAÇÃO E EXISTENCIALISMO: um diálogo possível entre Freire e Sartre

 José Alan da Silva Pereira

Graduado em licenciatura plena em filosofia pela faculdade de filosofia, ciência e letras de Caruaru – FAFICA. Atualmente mestrando em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

1. Introdução

 

          No prefácio para o livro Pedagogia do Oprimido, o professor Ernani Maria Fiori traz um dos testemunhos mais contundentes e uma das frases mais elucidativas sobre a personalidade educadora de Paulo Freire: “Paulo Freire é um pensador comprometido com a vida: não pensa ideias, pensa a existência” (FREIRE, 2005, p. 7). Ao ler tal sentença, percebemos a partir de onde um diálogo pode ser estabelecido entre esses dois gigantes do pensamento contemporâneo, a saber: Freire e Sartre.       

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