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Pedro Abelardo e a questão dos Universais

Pedro Abelardo, viveu durante o período da Escolástica (de 1079 a 1142), na França, numa época em que as disputas de argumentação lógica, as chamadas disputatio, eram bastante comuns. Como se sabe, o pensamento filosófico medieval foi marcado pela grande influência cristã da Igreja Católica e, desse modo, as disputas visavam provar, por vezes, a existência de Deus, por vezes, a Trindade, etc, procurando, sempre, uma coerência e uma validade argumentativa lógica.

Nessa época, a lógica aristotélica era um instrumento de grande poder e autoridade argumentativa e aquele que soubesse melhor utilizá-la e conseguir provar seu argumento de forma irrefutável era visto com bastante respeito dentro das universidades. Uma questão que mexeu com toda a comunidade dos pensadores medievais (ou ao menos com a grande maioria deles) era o problema dos universais. Tal questão era crucial para os pensadores do medievo e para a dialética este termo possuía uma natureza quase divina. 

Abelardo escreveu muitas obras, mas nem todas de cunho lógico. Suas obras podem ser divididas em dois tipos: as obras de lógica e as obras de doutrina cristã. As obras lógicas foram escritas no primeiro momento de sua vida intelectual, de 1102 a 1126. As primeiras obras desse tema são pequenos comentários de Abelardo sobre Aristóteles e dois pensadores chamados Porfírio e Boécio. Num momento posterior, Abelardo escreve comentários mais longos sobre estes pensadores e os reúne numa série de trabalhos. O primeiro deles é Logica Ingredientibus, traduzido em português para Lógica para principiantes. As obras sobre doutrina cristã tiveram produção no período mais próximo ao final de sua vida. Datam de 1120 ao ano de sua morte, 1142. Vale lembrar que também escreveu uma carta autobiográfica chamada Historia Calamitatum (História das minhas calamidades). Ela foi escrita no segundo período de Abelardo em Paris que foi de 1132 a aproximadamente 1140 sendo este período considerado o mais produtivo de sua vida.

O presente artigo abordará uma análise do que é o universal e como Abelardo analisou esta questão diante do que era colocado em sua época.    

O termo universal representa a propriedade comum a todos os indivíduos singulares. A partir desta definição pode-se admitir o gênero como o universal mais abrangente e, desse modo, é possível dividir os gêneros segundo suas características distintas, por exemplo, os animais das aves. Ao dividirmos os animais das aves obtemos dois tipos de gêneros de seres vivos. E, ao dividirmos certos animais de outros animais, por exemplo, humanos de cavalos, obtemos duas espécies do gênero animal. E, indo mais além, ao distinguirmos certo homem de outro homem, obtemos dois indivíduos distintos. É desse modo que a divisão acerca do conhecimento do mundo foi feita, num primeiro momento, por Platão e, num segundo momento, de modo brilhantemente sistematizado por Aristóteles.

O universaltornou-se uma grande questão para os pensadores da Idade Média. Já que toda a divisão dos gêneros e das espécies estava bem clara e bem fechada num esquema irrefutável, tais pensadores decidiram refletir acerca da natureza e da própria existência do universal. De tais indagações surgiram duas correntes filosóficas chamadas realismo e nominalismo.

O realismo, como o próprio nome sugere, admite a existência real dos universais. Esta corrente teve várias interpretações, mas aquela a qual Abelardo se contrapôs foi a do realismo desenvolvido por um de seus mestres, Guilherme de Champeaux (-1121). A visão de Champeaux é uma visão mais radical acerca dos universais esbarrando com a visão platônica de idéia. Ele afirmava que os universais são materialmente existentes e sua existência é anterior a qualquer ente singular que dele deriva, ou seja, funcionam como modelos ideais de onde partem todos os entes singulares. Por exemplo, para que exista qualquer indivíduo humano no mundo é necessário pressupor que exista um universal homem que gere o indivíduo em todas as propriedades que o possibilitam a ser homem. Em isso acontecendo, portanto, a essência material homem está presente em todos os seres humanos individuais (bem como a essência material do gênero animal). Nesse caso, o universal existe enquanto matéria numa característica transcendental. É preciso, pois, diferenciar o realismo do idealismo. O idealismo assegura que todo o fundamento do real está contido na consciência do sujeito; o realismo, como foi dito, assegura que o fundamento do real está para além da consciência subjetiva do homem sendo, inclusive, anterior a ele.

O nominalismo, por sua vez, é o outro lado da moeda dentro da questão dos universais. Esta corrente foi desenvolvida na Escolástica, mas foi estudada por muitos outros pensadores posteriores. É uma postura inversa e radical ao realismo, pois abandona qualquer idéia real acerca da existência dos universais. Abelardo teve grande contato com o nominalismo de Roscelino (1010-1120) que também foi seu mestre. Roscelino negava qualquer existência dos universais, principalmente a existência material. Não há universais, o que existe, de fato, são apenas os entes singulares. Tudo o que os torna unos é apenas a palavra. Ou seja, segundo Roscelino, podemos reunir vários entes singulares a partir de uma propriedade que eles têm em comum e, a partir daí, relacioná-los a uma palavra. Portanto, a palavra (que nesse caso reuniria os entes, ou seja, o universal) seria um som articulado, porém, vazio (o chamado flatus vocis). Não há um ser, único, que a palavra revela. A palavra apenas reúne diversos entes singulares numa coleção em função de uma propriedade comum. Se há uma existência material dos universais, essa existência é a palavra (que, de fato, nada denota).   

Toda esta especulação que se impunha acerca da natureza e existência dos universais teve como ponto de partida três perguntas que um pensador neoplatônico chamado Porfírio (232/2-304) deixou em sua obra Introdução às categorias (Isagoge). Tal obra teve tanta importância nesse período quanto as Categorias e o De Interpretatione de Aristóteles. Boécio, que viveu entre 470 e 525, foi quem traduziu tal obra deixando, portanto, vivas essas perguntas para os filósofos dialéticos posteriores.

Inserido em todo esse contexto dialético que reinava entre o realismo e o nominalismo, diante das perguntas de Porfírio, é que Abelardo toma posição. Seu percurso reflexivo tomará corpo em sua obra Lógica para Principiantes (ou Logica Ingredientibus). Nessa obra, Abelardo responde as três perguntas de Porfírio e elabora uma quarta pergunta, conclusiva, desenvolvendo, desse modo, uma reflexão original e coerente acerca do que é o universal.

As três perguntas que Abelardo responderá são:

1)Possuem os gêneros e as espécies (os universais) existência independente ou são eles construções mentais?

2)Se os universais, de fato, possuem uma existência independente, são eles corpóreos ou incorpóreos?

3)Os universais existem para além das coisas sensíveis ou estão nas próprias coisas sensíveis?

E a pergunta elaborada por Abelardo é:

1)Se a referência (objeto) de um termo universal qualquer deixasse de existir (como seria o caso da palavra “rosa” se todas as rosas deixassem de existir), poderia, ainda, este termo universal ter sentido mental, isto é, continuaria a ter significado? Seria possível falar de rosas mesmo se não existisse mais nenhuma rosa no mundo?

Abelardo parte da idéia de que todas as coisas que encontramos no mundo são coisas singulares (inclusive um som ou uma cor, são considerados coisas singulares). Porém, ele não admite que o universal seja uma coisa, ou seja, como forma platônica. Se isso fosse verdadeiro não distinguiríamos um homem de outro, por exemplo, Sócrates de Platão, pois ambos possuiriam a essência homem, invalidando suas características singulares. O mesmo aconteceria com as coisas contrárias, como animal racional e animal irracional, ou seja, são idênticos quanto à essência animal. Tal fato seria desastroso para a distinção dos entes. Nesse sentido, Abelardo admite o universalcomo um produto da abstração, designando-o, portanto, como conceito que existe no entendimento humano. Aristotelicamente, Abelardo assegura o universal como aquilo que é predicado de muitos (sujeitos), como a mortalidade é predicado de homem, cavalo, águia ou como bípede é predicado de vários homens (Sócrates, Platão, etc).

 Sua teoria pode ser chamada conceitualista (vale ressaltar que nem todos os comentadores de Abelardo designam sua teoria como conceitualista. Alguns a designam como nominalista não radical). Sua posição acerca do problema dos universais é uma síntese inteligente do realismo e do nominalismo. Para Abelardo, os universais, apesar de não possuírem uma existência real, possuem existência no entendimento humano, como conceitos (que seria uma perspectiva nominalista) e, como conceitos, significam coisas reais, ou seja características reais (propriedades) dos entes particulares (que seria uma perspectiva realista).  Abelardo não reduz os universais somente à palavra como fizeram o nominalistas nem às idéias platônicas como fizeram os realistas. Segundo Abelardo, “deve-se notar, porém, que, embora a definição do universal ou do gênero ou da espécie inclua apenas palavras, estes nomes são freqüentemente transpostos para as suas coisas como quando se diz que a espécie consta do gênero e da diferença, isto é, a coisa da espécie da coisa do gênero. De fato, quando se explica a natureza das palavras quanto à significação, ora se trata das palavras, ora das coisas e freqüentemente os nomes daquelas são transpostos para estas e reciprocamente.”(1)  

         Diante dessa postura sobre os universais, Abelardo responde as questões de Porfírio.

a)Resposta à primeira pergunta:

Os termos universais, de modo contrário aos nominalistas, referem-se a coisas reais. Essas coisas reais são os aspectos (propriedades) reais dos entes singulares. Na palavras de Abelardo: “eles significam por meio da denominação coisas verdadeiramente existentes, isto é, as mesmas coisas que os nomes singulares, e que de modo algum estão colocados numa opinião vazia...”(2)

b)Resposta à segunda pergunta:

De um lado, os universais são corpóreos se suas referências são qualidades reais (por exemplo, madeira). Por outro lado são incorpóreos, em virtude do modo como são conceituados (isto é, os universais podem ser corpóreos ou incorpóreos – podem ou não ser percebidos por um sentido corpóreo. Abelardo nos aponta que “certamente como diz Boécio, tudo o que existe ou é corpóreo ou incorpóreo, isto é, tomamos estes nomes de corpóreo e incorpóreo por corpo substancial e não-corpo ou aquilo que pode ser percebido por um sentido corpóreo, tal como um homem, a madeira, a brancura, ou não pode, como, por exemplo, a alma, a justiça.”(2)

c)Resposta à terceira pergunta:

Esta pergunta é dependente das duas primeiras. Aqui, toma-se o universal como incorpóreo, pois “... evidentemente, o ser incorpóreo, tomado de um certo modo, é dividido por existir e não existir no sensível...”(2). A resposta à questão é respondida em duas partes: i) eles subsistem nas coisas sensíveis como a cor branca subsiste em todos os entes singulares que são brancos; ii) os universais existem somente na mente, não subsistindo nos sensíveis. Como diz Abelardo: “diz-se que os universais subsistem nas coisas sensíveis, isto é, que significam uma substância intrínseca numa coisa que é sensível em virtude das suas formas exteriores (...). Mas, porque os seu significado sempre se dizia isolado dos sentidos, eles não pareciam de modo algum existir nas coisas sensíveis. Por isso, indagava-se com razão se eles poderiam existir alguma vez nos sensíveis, e responde-se, quanto a certos deles, que existem, mas de tal maneira que, como foi dito, continuam a existir naturalmente fora da sensibilidade.”(2)

d)  Resposta à quarta pergunta:

Se todas as coisas nomeadas por um termo universal parasse de existir, então este termo preservaria consigo seu sentido (significado), como no caso em que se todas as rosas deixassem de existir. Caso contrário, a proposição “não há rosas” jamais poderia ser formulada, pois, simplesmente não teria sentido. Desse modo, para Abelardo, podemos negar a existência de qualquer objeto no mundo, sem, por isso, enunciar uma proposição falsa ou sem sentido. Novamente as palavras de Abelardo: “a solução é esta: nós, de modo algum, queremos que os nomes universais existam, quando, tendo sido destruídas as suas coisas, eles já não sejam predicáveis a respeito de muitos, porquanto eles não são comuns a quaisquer coisas, como ocorre com o nome da rosa, quando já não existem mais rosas, o que, entretanto, ainda é significativo em virtude do intelecto, embora careça de denominação, pois de outra sorte não haveria a seguinte proposição: nenhuma rosa existe. ”(2)

         A teoria de Abelardo pode ser sintetizada do seguinte modo: os universais existem enquanto conceitos (aquilo que se predica de muitos) no entendimento humano, podendo ser: a) corpóreos quando designam características reais dos corpos (por exemplo, a madeira, um homem, etc); b) não corpóreos: 1) quando subsistindo nos sensíveis (nas coisas reais), por exemplo, a brancura em algum corpo ou 2) quando não subsistindo nos sensíveis, isto é, enquanto modo de significação na mente.     

Ao tratar da questão dos universais pode-se dizer que Abelardo foi mais nominalista que realista. Mas, sem dúvida, seu argumento conceitualista foi bem mais claro e coerente do que os argumentos de seus mestres Roscelino e Champeaux. O modo de tratar os universais como conceitos é um modo lógico de aceitar a existência destes sem defender uma teoria das idéias ou incorporar um argumento em favor da teoria flatus vocis.

Vanice Ribeiro da Silva

Mestranda em Filosofia - USP

 

 

Bibliografia

(1)ABELARDO, Pedro. Lógica para principiantes. Tradução por Ruy Afonso da Costa Nunes. Abril Cultural: São Paulo, 1973, Col. Os Pensadores.

(2)ABELARDO, Pedro. Lógica para principiantes. Tradução por Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento. Vozes: Petrópolis, 1994.

BROWER, Jeffrey E., GUILFOY, Kevin (editors). The Cambridge companion to Abelard. Cambridge University Press: Cambridge, 2004.  

PRICE, B. B. Introdução ao pensamento medieval. Tradução por Teresa Curvelo. Asa Literatura.                    

 

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