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Estética: a ciência das formas

Para os gregos da idade clássica a beleza era poiésis, um bem fazer uma coisa. Já na estética platônica esse conceito se amplia alcançando novas dimensões. O belo é o que é próprio da Idéia, é a beleza que emerge da verdade. Assim, a estética não está na busca do belo; pois o belo é belo porque é. É a Beleza essencial, ontológica, própria da dimensão do Ser.

Platão busca definir o belo por si mesmo, desse modo, o belo não pode ser definido como coisas belas, porém; o belo existe a partir delas. O belo possui caráter absoluto e idêntico. É o que proporciona prazer, um prazer do conhecimento. Em Platão, o Belo, o Verdadeiro e o Bom se identificam, são manifestações da Beleza presentes na Idéia do Bem. O belo é o esplendor do verdadeiro.

        Assim, na estética platônica, há um estreito vínculo entre o belo e a Idéia do Bem, logo, se uma coisa nos provoca admiração na alma, o belo físico, as formas, os sons, as cores, é porque o belo acorda em nossas almas a reminiscência de um bem perdido, um bem que nossas almas possuíram quando, no coro dos bem aventurados, contemplaram o magnífico espetáculo das Idéias Eternas.

        Desse modo, Platão concebe o Belo como o objeto da estética, o Bem da moral e o Verdadeiro da ciência. Assim, a busca do belo faz parte da incessante sede de conhecer do homem, Sendo essa busca a causadora de uma verdade interior que deve ser descoberta.

        Entretanto, em Platão, a beleza é também utilitária; uma ferramenta de trabalho, que corresponda perfeitamente ao fim a que se destina, é bela. Tanto quanto “é bela uma bela égua” (Platão, Hípias Maior). Tal conceito de belo, porém, não corresponde ao de uma representação artística, pois esta seria mimésis (imitação), porque seria uma cópia da cópia, e isso em Platão não é arte, pois a arte é poiésis, um fazer, um criar, desse modo, um artesão é um poiético.

        A emoção estética é a emoção originária transformada através do material objetivo ao qual foi confiado o seu desenvolvimento e a sua realização, é um retorno à natureza original.

        Já na visão estética de Tomás de Aquino, o belo é o esplendor formal, pois todas as coisas possuem uma forma. A forma é o princípio que faz a perfeição própria de tudo o que é, do que constitui, é a essência e as qualidades da mesma, como tal, ela é o esplendor da vida, ou melhor do Ser, um esplendor ontológico; ela realiza o ideal do artista.

         Tomás de Aquino, define a beleza pelos seus efeitos, “ed quae visa placent”: o belo agrada a visão. É um conhecimento intuitivo e de deleite, onde a beleza interessa sobretudo à inteligência para depois atuar sobre os sentidos. As coisas belas agradam no sentido inteligenciado, não no afetivo, agradar significa ser conveniente, e esse agrado intelectual se dá na concordância do conhecido com o conhecente, pois os sentidos se deleitam em coisas devidamente proporcionadas. A beleza sensível, própria dos sentidos, os põem num estado de satisfação quando contemplam, pois o belo consiste na devida proporção.

        Tomás reconhece ainda, que o prazer intelectual é superior ao sensual, pois a união íntima entre o ser desejado e o espírito é mais perfeita, entretanto, os prazeres sensíveis, são mais desejados e aceitos para curar os males e as tristezas que afetam o corpo, por serem mais conhecidos e acessíveis que os prazeres espirituais, porém estes, só serão bons se forem ordenados pela razão.

        Desse modo, o conhecimento da Ciência das Formas, Estética, nos possibilita uma maior dimensão filosófica das ilimitadas possibilidades de apreciação do belo, das coisas belas.

        O bem entender, o bem conhecer, é uma excelência, mas não é arte. É que a arte é uma disposição relacionada ao fazer, a criação que inclui um modelo verdadeiro de raciocínio. Assim, um objeto é belo porque realiza o seu destino, é autêntico e verdadeiro segundo seu modo de ser.

        Ao campo da estética pertence a análise da obra de arte. A arte enquanto uma forma de conhecimento é também uma atividade prática. Está inserida no especulativo prático e não separa o ensaio do eu. A arte não é só talento, o trabalho artístico também implica em esforço. Ela revela e manifesta a essência da realidade, inventa um mundo de cores, formas volumes, sons, texturas, ritmos e palavras para nos dar a conhecer nosso próprio mundo, abrindo-nos o acesso ao verdadeiro, ao sublime, ao terrível, a dor e ao prazer: ao Belo.

        “A obra de arte é aberta no sentido de que ela própria instaura um universo bastante amplo de significações que vão sendo captadas, dependendo da disponibilidade dos receptores” (Umberto Eco, Obra Aberta, p. 328)

        A arte é mais uma das formas pela qual o homem pode ter acesso ao conhecimento do mundo, do ser no mundo, de Deus , da Verdade; ela faz traduzir o que é ininteligível através da linguagem. É a realização perfeita da beleza que a natureza só alcança de modo parcial. Ela não imita nem reproduz a natureza, mas liberta-se desta, criando uma realidade puramente humana e racional. Assim, o canto de um pássaro, o murmúrio de um rio, são belos, mas não são arte. A arte é essencialmente uma forma de sentimento, uma forma de afeto de nossa natureza, mas fundamentalmente, é uma manifestação do intelecto.

        A expressão de arte é por sua natureza comunicação. As possibilidades comunicativas de uma obra de arte realizada são praticamente ilimitadas e independentes do gosto dominante, é que nem todos devem, necessariamente, apreciar uma obra de arte do mesmo modo ou fruí-la igualmente, as respostas individuais em face a obra de arte podem ser inumeráveis e apresentar ou não entre si, uniformidade de gostos; não importa a uniformidade, importa a possibilidade que se abre à novas interpretações, novos modos de se desfrutar uma mesma obra de arte, possibilidades abertas no tempo e no espaço.

        A arte, bem como o belo que ela sugere, e que é agradável aos sentidos, ainda que estruturados em valores universais, e, em que pesem as variações culturais, só podem ser apreciados completamente na experiência singular do sujeito. É que o belo está presente nos objetos sensíveis sendo reconhecido e julgado como tal pela sensibilidade, é uma qualidade que o sujeito atribui aos objetos a partir da experiência subjetiva do prazer por ele experienciado.

        Assim, não podem haver leis que atuem como base para a contemplação de uma obra de arte (qualquer seja), pois se houvessem tais leis, esta perderia algo de seu encanto e valor; da sugestão intelectual que o belo transmite ao emocional, pois a estética diz respeito a inteligência, o belo porém não atrai, apenas sugere ao intelecto

        “Arte é a própria atividade criadora do absoluto porque o mundo é um poema” (Schelling, apud Abbgnano, Dicionário de filosofia, p. 326).

        O homem é o único ser vivo capaz de experienciar as emoções estéticas e as paixões, bem como compreender e apreciar o belo e as coisas belas sem qualquer finalidade utilitária, apenas para se deleitar e se comprazer. A possibilidade de apreciação desse belo, em nós se dá pela via da razão, único meio de que dispomos para usufruir desse gozo.

        Entretanto, é impossível definir o belo como coisas belas, pois as  coisas valem por si mesmas. O belo não pode ainda ser definido , pois para uns apresenta-se como universal e absoluto e para outros tantos como universal e relativo. Ele é um produto da faculdade subjetiva formuladora de juízos estéticos, faculdade comum a todos os homens, o que garante a universalidade do belo porque fundamentada na unidade e universalidade do espírito humano.

        Assim não se pode reduzir a estética tão somente a apreciação de uma obra de arte, por exemplo: faz se necessário, apreciar a beleza em tudo o que se nos apresenta, independentemente de qualquer juízo de valor. A estética ocupa-se coma investigação racional do belo e com a análise dos sentimentos por ele provocados

         Acima de tudo, porém, o belo não se confunde com o agradável, o útil, o verdadeiro e o bom, ele distingue-se entre o concreto e o abstrato, belo, beleza; bom, bondade etc. .Assim, conclui-se da impossibilidade de se haver regras quantitativas no que respeita à apreciação do belo, pois todo juízo estético também provém do sentimento do sujeito que aprecia e não puramente do conceito de um objeto.

        Concluímos: que as coisas belas são belas porque são. E que o belo é a máxima manifestação da coisa; pois o Ser enquanto existente, é perfeito em sua manifestação, ou seja, se mostra como É; assim é belo: é belo porque é. O belo acaricia apaixonadamente nossa alma. Destino e fim último do intelecto humano: a participação na Beleza.

        “Vem do olho e ao olho se dirige, há que compreender o olho como a janela da alma (...) o olho pelo qual a beleza do universo é revelada à nossa contemplação (...) a visão é o encontro, como numa encruzilhada, de todos os aspectos do Ser” (Merleau Ponty, O olho e o espírito, p. 71).

Dalva de Fatima Fulgeri

Licenciada em Filosofia - Unisantos

 

BIBLIOGRAFIA:

PESSOA, Fernando. Antologia. São Paulo, Moderna; 1998, Col. Travessias, s.d.

PONTY-Merleau. Textos Escolhidos. São Paulo, Nova Cultural; 1988, Col. Pensadores.

PLATÃO. Hípias Maior. Pará, UFP, Col.. Amazônica, 2001, 3Ed.

AQUINO, Tomás. Suma Teológica. Lisboa: Edições 70, 1974, sd.

ECO, Umberto. Obra Aberta. Sd.

 

 

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EDUCAÇÃO E EXISTENCIALISMO: um diálogo possível entre Freire e Sartre

 José Alan da Silva Pereira

Graduado em licenciatura plena em filosofia pela faculdade de filosofia, ciência e letras de Caruaru – FAFICA. Atualmente mestrando em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

1. Introdução

 

          No prefácio para o livro Pedagogia do Oprimido, o professor Ernani Maria Fiori traz um dos testemunhos mais contundentes e uma das frases mais elucidativas sobre a personalidade educadora de Paulo Freire: “Paulo Freire é um pensador comprometido com a vida: não pensa ideias, pensa a existência” (FREIRE, 2005, p. 7). Ao ler tal sentença, percebemos a partir de onde um diálogo pode ser estabelecido entre esses dois gigantes do pensamento contemporâneo, a saber: Freire e Sartre.       

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  2. Possui valor absoluto diante da realidade Leia mais...
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    A Interpretação de Hannah Arendt da proairesis aristotélica

     Adriano Martins Soler

    Mestrando em Filosofia - PUCSP

    Introdução

    O presente artigo trata de uma releitura do texto exposto na primeira parte do Capítulo 2 – A descoberta do homem interior – do Volume 2 – O Querer (A vontade) – da obra A Vida do Espírito de Hannah Arendt. Depois do Pensar, é o Querer que é solicitado, para confiar o segredo antropológico da aberração que, certo destino histórico da modernidade, demonstrou através de uma nova crítica do juízo. Desta vez, Arendt vai em busca de uma genealogia das teorias da vontade - da proairesis antiga até Nietzsche e Heidegger, passando pelo pensamento medieval.

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    O mistério do mal

    Wellington Lima Amorim
    Doutor em Ciências humanas - UFSC
    Mateus Ramos Cardoso
    Pós-Graduado em  Filosofia - Univ. Cândido Mendes- RJ


    O Mal sempre nos causa medo e espanto e nos repele de nossa própria realidade, seja ela entendida como o mundo no qual nos encontramos ou mesmo a realidade pessoal. Mas e quando somos nós que o realizamos? Será que somos capazes de descrever o Mal explicitando-o com nossas próprias palavras ou ações? O que tem o Mal a ver com Deus? O que tem o Mal a ver conosco?

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    Expediente

    Paradigmas

    Ano X - Nº 37
    Filosofia, Realidade & Arte
    ISSN 1980-4342

    Setembro/outubro 2011

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