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Gramsci, o intelectual, o partido e a revolução

O grupo social que pretende conquistar a cidadela, deve antes de tudo elaborar uma cultura própria, uma visão de mundo e um  conjunto, de ideais que o ponham em condições de apresentar a sua candidatura à direção da sociedade nacional. Mas isso não basta, já que também deve se organizar para difundir essa cultura entre as massas e fazê-la transformar-se em patrimônio nacional. Ao mesmo tempo, deve dar vida a um organismo autônomo que discipline de modo férreo as forças sociais interessadas na mudança e que pretendem instituir nova organização social.

Aí estão precisamente as raízes das duas grandes questões enfrentadas por Gramsci:  a função dos intelectuais e a natureza do partido. E isso pelo fato de que “uma ‘massa’ não se ‘distingue’ e não se torna ‘independente’ sem se organizar. E não há organização sem intelectuais, isto é, sem organizadores e dirigentes, ou seja, sem que o aspecto teórico do anexo teoria-prática se distinga concretamente em uma camada de pessoas ‘especializadas’ na elaboração conceitual e filosófica.” Os intelectuais, portanto, são necessários para a construção do socialismo: eles são os “representantes da ciência e da técnica” que dão “ao proletariado  a consciência de sua missão histórica”.

Desse modo, como a justa consciência de classe constitui o ponto central da teoria marxista da revolução, pode-se compreender muito bem porque os intelectuais assumem papel central na concepção Gramsciana do desenvolvimento da história: “Eles devem elaborar e difundir a doutrina do socialismo; devem organizar as massas em exército compacto e fortemente disciplinado; devem também dirigir o movimento revolucionário, tanto na fase que precede a conquista da hegemonia como na fase da gestão  direta do poder” (L. Pellicani).

Assim, o intelectual não é mais o desinteressado pesquisador da verdade: ele se configura como agente do partido. Deve se transformar, escreve Gramsci, em “político, dirigente orgânico de partido”, ou seja, deve “se dedicar ativamente à vida prática como construtor, organizador e persuasor permanente”. E intelectuais não são somente os que comumente se dizem tais: para Gramsci, sob a denominação de intelectuais devemos abranger “em geral, todo o segmento social que exerce funções organizativas em sentido lato, seja no campo da produção, seja no campo da cultura, seja no campo político-administrativo”. O intelectual é “funcionário”, “persuasor permanente”, “agente da classe dominante”.

Mas, enquanto os intelectuais italianos, da Renascença em diante, não souberam unificar culturalmente a sociedade e, como Croce e Gentile, pretenderam representar a “alta cultura” oposta a e separada da “cultura popular”, o intelectual marxista é ao contrário, intelectual orgânico. Ele não se afasta das massas populares; ao contrário, ele compartilha os problemas e faz suas premências e aspirações das massas populares, procurando apresentar-lhes uma interpretação cultural e ideal válida e consistente, em condições de congregar sempre mais essas massas e influir hegemonicamente sobre a sociedade mais ampla, a qual deverá ser educada na nova perspectiva e na nova cultura. Na realidade, escreve Gramsci, “toda relação hegemônica é necessariamente relação pedagógica”.

Na visão de Gramsci, portanto, o intelectual orgânico tende a se identificar com o dirigente ou o responsável do partido. E o próprio partido, interpretando os interesses e as aspirações dos seus membros, oferecendo-llhes “todas as satisfações que encontravam antes em multiplicidade de organizações”, tende  a se situar como intelectual orgânico por excelência. O Partido Comunista “representa a totalidade dos interesses e das aspirações da classe trabalhadora”, é a encarnação da vontade coletiva revolucionária jacobina – e, portanto, moderno príncipe.

Somente que, diferente do que é em Maquiavel “o moderno príncipe (...) não pode ser pessoa real, indivíduo concreto; pode ser somente organismo, elemento social complexo, no qual já tenha se iniciado a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação.  Esse organismo já é dado pelo desenvolvimento histórico: é o partido político, a primeira  célula em que se resumem os germes da vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais”.

O partido é o “foco da fé” e o “depositário da doutrina”. Ele, portanto, é o moderno príncipe. Escreve Gramsci: “Desenvolvendo-se, o moderno príncipe envolve todo o sistema de relações intelectuais e morais, enquanto o seu desenvolvimento significa precisamente que todo ato é concebido como útil ou danoso, como virtuoso ou mal. Somente enquanto tem com ponto de referência o próprio moderno príncipe e serve para aumentar o seu poder ou contrastá-lo. Na consciência, o príncipe toma o lugar da divindade do imperativo categórico, tornando-se a base do laicismo moderno e de todas relações de costume”.

Ë por isso que Gramsci afirmava que o socialismo é “a religião que deve matar o cristianismo”.  E o partido é a Verdade: Daí deriva a idéia Gramsciana da subordinação sem reservas do militante à vontade do partido, que é “centralizado”, “ideologicamente unido” e temperado por uma “disciplina férrea”. E daí a idéia de que se deve combater, com toda firmeza possível todos os desvios chamados ‘científicos’”. O partido é como uma igreja. E a revolução é como a guerra: “Deve ser minuciosamente preparada por um estado – maior operário, assim como a guerra é preparada pelo estado-maior do exército”.

Com base nisso tudo, ninguém pode negar o interesse e a coerência do projeto de Gramsci. Entretanto, muito poucos se satisfazem com a idéia de partido onívoro e totalitário, que, fora e além de qualquer controle público acredita poder criar a  “verdade” por decreto e determinar o que é a justiça por meio de atos e arbítrio. A sociedade sonhada por Gramsci é sociedade sectária, baseada em maniqueísmo moral. É exatamente o oposto da sociedade aberta. E mostra que, em cada utopista, sempre vive um totalitário.

Paulo Leandro Maia

Mestrando em Filosofia – PUC/SP

 

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