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A Psicologia como uma ciência empírica segundo Franz Brentano

A teoria da intencionalidade é formulada por Brentano na obra Psicologia do Ponto de Vista Empírico (1974). O propósito explícito desta obra é especificar o objeto da psicologia, bem como definir a sua natureza. No entanto, Brentano afirma (na introdução) que a psicologia, quando corretamente formulada, não consiste apenas em uma ciência entre outras. Uma correta formulação acerca da natureza do seu objeto seria o primeiro passo na construção de uma ciência primordial destituída de qualquer entrave metafísico. Embora Brentano afirme o propósito da formulação da psicologia como ciência, devemos reconhecer que seu objetivo é um pouco mais profundo. Ele pretende explicitar o status ontológico que a psicologia comporta como uma ciência empírica e, assim, colocá-la como condição de todas as outras ciências.  Em outras palavras, Brentano pretende explicitar o fundamento ontológico da psicologia de modo que ela possa ser compreendida como uma ciência não metafísica, mas que comporte um estatuto primordial sobre as demais ciências. Portanto, a teoria da intencionalidade é formulada para levar a cabo o propósito de explicitar o fundamento ontológico de uma psicologia empírica. 

Embora a teoria da intencionalidade possa ser interpretada como uma psicologia, interessa-nos a sua estrita relação com a ontologia. Em outras palavras, nossa pesquisa consiste numa análise dos conceitos da teoria da intencionalidade como forma de explicitar seu fundamento ontológico. Brentano foi o primeiro filósofo a formular o conceito de intencionalidade. No  entanto, ele não é o criador de outros conceitos fundamentais apresentados nesta teoria. Ele mesmo confessa que, por um lado, é discípulo de Aristóteles, fonte de toda sua concepção ontológica. Por outro lado, ele explicita o desenvolvimento histórico da noção de existência intencional. Pois se trata de uma idéia germinada no pensamento aristotélico que, no entanto, chega a sua época passando por Philo de Alexandria e Tomas de Aquino. 

Brentano apresenta-se como um discípulo de Aristóteles que se afastou do mestre para solucionar uma questão primordial que este propusera. No entanto, encontramos dois modos distintos de resolução desta questão. Na “Psicologia do Ponto de Vista Empírico” a teoria brentaniana da intencionalidade consiste numa reformulação da ontologia aristotélica com intuito de afirmar a realidade do ato intencional, bem como a objetividade do seu correlato (ou sua existência intencional). Em outras palavras,  a teoria da intencionalidade consiste numa ontologia capaz de atribuir realidade ao ato de representar e, ainda, atribuir o estatuto objetivo a determinado modo de algo existir destituído de realidade, ou seja, à existência intencional. Na “Psicologia Descritiva” a teoria brentaniana da intencionalidade possui um intuito diferente. Embora esta teoria se fundamente numa ontologia capaz de afirmar a realidade do ato intencional, ela não oferece sustentação ontológica para o correlato do ato intencional . Em outras palavras,  a teoria da intencionalidade descrita na “Psicologia Descritiva” não consiste mais numa ontologia capaz de atribuir, de modo distinto, o estatuto objetivo a determinado modo de algo existir destituído de realidade. Portanto, o relevante é reconhecer que Brentano formula pelo menos dois modos distintos (PES e PD) de estabelecer os fundamentos ontológicos de uma teoria da intencionalidade. No entanto, a questão central é verificar como ambas as teorias da intencionalidade oferecem fundamento ontológico para o ato intencional, bem como para o seu correlato. Em outras palavras, além de verificar quão aristotélica é cada uma destas formulações, importa reconhecer qual é o estatuto ontológico que cada uma delas atribui ao ato intencional, bem como ao seu correlato. 

 No intuito de solucionar esta questão na “Psicologia do Ponto de Vista Empírico”, a argumentação brentaniana dá quatro passos sistemáticos para estabelecer os fundamentos de sua teoria. Primeiramente, a teoria brentaniana da intencionalidade estabelece que o mundo dos fenômenos está dividido exclusivamente em fenômenos físicos e fenômenos psíquicos. Esta divisão exaustiva tem o intuito de definir o objeto da psicologia (fenômenos psíquicos). No entanto, ela nada informa acerca do modo como Brentano concebe tais fenômenos.

O segundo passo da teoria da intencionalidade consiste em definir a natureza dos fenômenos psíquicos, afirmando que “todos os fenômenos psíquicos são representações ou baseiam-se me representações” (PES). Deste modo, poderíamos entender que o objeto da psicologia (fenômeno psíquico) nada mais é que uma representação ou aquilo que está baseada em uma representação? A resposta é afirmativa, se tomarmos o conceito de representação no sentido que a teoria brentaniana estabelece no passo seguinte.

No terceiro passo, Brentano propõe que a noção de ‘representação’ não deve ser entendida como conteúdo representado. Para ele, ‘representação’ é a única coisa dotada de realidade, pois se refere exclusivamente ao ato de representar. Ou seja, não há realidade em conteúdos de consciências, mas apenas na atividade desta. (Esta será uma das teses que Brentano sustentará com a reformulação da ontologia aristotélica – Ser como Ato).

Finalmente, o quarto passo da teoria da intencionalidade especifica a natureza daquilo que é definido como correlato do ato de representar. Assim, o ponto chave deste passo está em refutar a idéia de que o ato de representar se dirige à um determinado conteúdo representado de algo que esteja dentro ou fora da consciência. Não é a este tipo de conteúdo de consciência que o ato de representar se dirige. Mas, a um modo de ser objetivo existente de maneira intencional na atividade da consciência, ou aquilo que os medievais chamavam de in-existência. Assim, o ato de representar tem como correlato algo que É (existe) de modo objetivo na consciência, embora seja destituído de realidade. (Esta será uma outra tese que Brentano sustentará com a reformulação da ontologia aristotélica – Ser como substância e categorias).

Apesar das diferenças entre os fundamentos ontológicos de PES e PD, entendemos que o propósito brentaniano de fundar a psicologia como ciência empírica sustenta-se numa ontologia de inspiração aristotélica. Por outras palavras, a teoria da intencionalidade formulada por Brentano consiste numa radicalização, e não num abandono, do pensamento de Aristóteles.

Evandro Brito

Mestre em Filosofia –PUC/SP

 

BIBLIOGRAFIA

BRENTANO, Francisco. Descriptive Psychology. Trans. Benito Muller. London: Routledge, 1995.

_________ On Several Senses of Being in Aristotle. Trans. Rolf George. Berkeley: University of California Press.

__________ Psychology from an Empirical Standpoint. Trans. Antos C. Rancurello, D. B. Terrell, and Linda L. McAlister. London: Routledge & Kern Paul, 1973.

__________ The Psychology of Aristotle. Trans. Rolf George. Berkeley: University of California Press, 1977.

 

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