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Uma crítica de fundo ao capitalismo: Theodor Adorno

T. Adorno é um dos críticos mais severos da sociedade massificada contemporânea. Um dos aspectos por ele abordado em sua crítica é a técnica. Para isso, faz a distinção entre o significado de técnica na obra de arte e na indústria cultural.

         Para ele, na obra de arte encontra-se o sentido mais próprio do termo. Mas, para que se possa compreender melhor o seu pensamento, mister se faz preliminarmente esclarecer, ainda que brevemente, algumas questões de fundo.

         O grande problema evidenciado pelo autor é a cultura de massa, produto da industrial cultural e não produto da própria massa como pretendem os seus defensores. Essa concepção, por sua vez, já estabelece uma controvérsia, porquanto grande parte dos intelectuais defende que essa cultura é originada na própria população, ao contrário de Adorno, que viu bem o problema e defende a tese de que essa cultura é imposta pelos meios de comunicação, de cima para baixo, como forma de escoamento dos produtos industrializados.

         Pode-se verificar facilmente que a indústria produz de tudo, cada vez mais, e utiliza a mídia para inculcar as pretensas utilidades de seus produtos na mente do povo, que, por sua vez, sem condições de refletir criticamente, acaba por se tornar apenas um consumidor. Por isso, Adorno não utiliza a expressão “cultura de massa” e prefere “indústria cultural”, isto é, para que não haja confusões no seu entendimento.

         A “Arte superior”, segundo Adorno, é aquela não ditada pela indústria, é a que é produzia com maestria e liberdade de criação pelo artista, é a arte autêntica. A indústria cultural, por sua vez, produz a arte massificante, voltada apenas para os interesses comerciais.

         Aprofundando a discussão, Adorno faz a distinção dos sentidos do termo “técnica”, tanto na arte autêntica como na arte produzida pela indústria cultural. Para ele, deve-se compreender o sentido originário da técnica “enquanto qualquer coisa determinada intra-esteticamente”, ao passo que na indústria cultura, refere-se ao “desenvolvimento exterior às obras de arte.” Em outras palavras, enquanto no sentido originário a técnica está ligada à arte de bem fazer, na indústria cultural está ligada à arte de bem vender.

Não podemos deixar de abordar, também, a questão da origem histórica da técnica, a qual vem sendo sacrificada pelo poder econômico, que impõe o conceito de técnica segundo seus próprios interesses, utilizando-se de todos os meios de comunicação, principalmente rádio, televisão e cinema, os meios de maior abrangência. Desta forma, a técnica serve para firmar a dominação dos grupos economicamente fortes sobre todo o restante da sociedade. Não há ideologia, salvo a da própria intenção de vender o produto. Até mesmo as obras de arte autênticas são exploradas com o único fim de vender, sendo descaracterizadas, num processo de violência contra a sua originalidade.

         Nesse caminho, conforme se depreende da leitura de Adorno, a indústria cultural reduz o ser humano a mero consumidor, o homem perde a sua condição de ser pensante e assume definitivamente o papel de consumidor. Até há pouco tempo, vale ressaltar, o homem ainda ocupava os papéis de produtor e consumidor, mas paulatinamente a produção vem-se informatizando, e com o progresso da técnica industrial, alijando do mercado produtivo o ser humano. O distanciamento do capital em relação ao trabalho alarga-se vertiginosamente, encontrando-se num pólo os poucos grupos fortes economicamente e noutro, os milhões de humanos em plena miséria, contados como números descartados do mercado de produção – e não são poucos.

         Nesse sentido, aliás, é importante lembrar a irônica importância que se dá ao Código de Defesa do Consumidor e o esquecimento na poeira do tempo da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

         Espantoso é como o homem vem sucumbindo fragorosamente à indústria cultural, a qual serve, indiscutivelmente, ao sistema capitalista. Curioso é notar, como mostra Adorno, que o capitalismo tem suas raízes no iluminismo, que pretendia a libertação do homem de todos os seus medos e mitos, mas, ao contrário, os caminhos percorridos acabaram resultando na subjugação solapante do homem frente à máquina, ou mais propriamente, à técnica, no sentido desvirtuado pela industrial cultural, que “impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. (T. Adorno, Indústria Cultural)

         É entristecedor ver o homem escravo até mesmo em suas horas de lazer. O próprio sistema engana o ser humano, dando-lhe algumas horas ou dias de lazer, mas, ao mesmo tempo, impelindo-o a cumprir a técnica do lazer, cercando-o de pseudo-opções, todas com o único intuito de promover o consumo e, claro, reciclar o consumidor para que ele volte ainda mais voraz.

         Como conseqüência desse quadro de submissão, ou de velamento do ser, a sociedade contemporânea trilha seu caminho e, sob o pretexto de transmitir ao homem critérios para decidir diante do caos social instaurado, a indústria cultural avança sobre todos os espaços da sua percepção, asfixiando-o em sua condição humana de liberdade.

         O progresso da técnica, como bem lembra Adorno, no texto Indústria Cultural, destrói a autonomia dos indivíduos, “mas, diz, estes constituem, contudo, a condição prévia de uma sociedade democrática, que não se poderia salvaguardar e desabrochar senão através de homens não tutelados.”

         Nesse ponto, outra questão merece atenção. A condição para uma sociedade democrática é, sem dúvida, homens livres, cidadãos na verdadeira acepção da palavra. E o sistema vigente politicamente prega e defende a unhas e dentes, até mesmo ao custo de vidas inocentes, a democracia, mas, paradoxalmente, ou não, ao mesmo tempo adota políticas que levam ao massacre do ser em proveito do ter, promovendo a destruição do homem, que, em face do “progresso” cultural, não encontra tempo nem espaço para pensar, para refletir, para tomar consciência da situação.

         O que se tem, então, na verdade, não são sociedades democráticas, mas sociedades exploradoras do outro, sociedades que primam pelo acúmulo de bens e cujos cidadãos seguem, como se tivessem passado por uma lavagem cerebral, os ditames da tão “ilustre” indústria cultural.

         Destarte, os homens vão-se tornando escravos das grandes potências econômicas, sempre em busca de algum produto que o satisfaça, e cada vez mais essa satisfação dura menor tempo, o que leva o homem a mergulhar num abismo sem fim, cada vez mais distante da sua autonomia de ser humano.

         É preciso, pois, resgatar a autonomia do ser humano para que se possa construir uma sociedade autenticamente democrática. É preciso dar ao homem condições para que pense a sociedade em que vive, para que reflita e se posicione diante da indústria cultural que o ameaça de extinção. Para isso, penso, o único caminho é a educação, não uma educação pautada nos mesmos valores de técnica da indústria cultural, mas uma educação que prime pela formação de um cidadão livre.

         Nesse passo, ganha papel fundamental o filósofo, porquanto é uma das raras fileiras contra essa relação de dominação mais e mais exasperada. E o filósofo é aquele que ainda resiste ao consumismo desmedido impingido pelo sistema econômico-político, e que se preocupa não apenas consigo mesmo, mas, principalmente, com o outro. É aquele a quem cabe a função, dentre outras, de trabalhar no sentido de propiciar às pessoas condições de se libertarem das amarras do capitalismo, isto é, propiciar condições que permitam ao homem pensar, refletir e posicionar-se diante da realidade conscientemente.

         Por isso, penso, enfim, se o governo não coloca, como se é facilmente compreensível o porquê, a Filosofia nas escolas, os filósofos devem levar a Filosofia às ruas, a todos os recantos da sociedade, sem a concepção elitista de que para filosofar é preciso estar nas grandes academias.

Luiz Meirelles,

Bacharel em Direito – Unisantos

 Licenciado em Letras e Filosofia – Unisantos

Mestrando em Filosofia – PUC/SP 

Presidente do CEFS

 

Bibliografia.

ADORNO, Theodor W. Sociologia. Editora Ática, São Paulo, 1986.

__________________ Textos Escolhidos. Coleção Os Pensadores. Nova Cultural, São Paulo, 1996.

 

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