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A Revolução Científica do Séc. XVII

         Concebe-se comumente o termo ‘Revolução’ associado a radicais transformações que ocorrem no âmbito político, e, sobretudo, social. Assim, a Revolução Russa de 1917 nos chega rapidamente à nossa memória como a revolta da massa campesina contra a estrutura feudal czarista. É possível citar igualmente, a Revolução Industrial, a segunda, na Inglaterra, geradora de profundas mudanças nas relações de trabalho que se impôs aos trabalhadores a partir do século XIX. Contudo, a reflexão acerca de transformações na esfera científica, principalmente confinadas na Idade Moderna, quase nunca se pensou. É desta forma, que este artigo se objetiva a desfazer a concepção corrente de que uma revolução esteja aplicada única e exclusivamente ao campo político, social ou mesmo econômico.

         O início da revolução científica se dá em plena modernidade, especificamente séculos XVI e principalmente XVII com o matemático e filósofo da natureza Galileu Galilei. Entretanto, é preciso resgatar alguns elementos da astronomia e da própria física aristotélicas, durante a antiguidade clássica, para que possa haver uma plena compreensão da representação das mudanças de concepção de mundo ocorridas na Idade Moderna.

         O primeiro elemento a ser evocado é aquele relacionado a concepções e modelos astronômicos de Platão e Aristóteles. De acordo com ambos filósofos, o cosmo se divide em esferas concêntricas (as que possuem o mesmo centro), determinado hierarquicamente; os planetas, assim como o sol, estão fixados nas esferas; a Terra está parada no centro deste universo – de acordo com Aristóteles, o nosso planeta é muito pesado para que

possa se mover; para Platão o universo é hierárquico, pois há uma divisão entre dois mundos: O Sublunar e o Supralunar. O primeiro é caracterizado pela por sua perfectibilidade. Já o último, identifica-se com a pura imperfeição e mudança por que passam as coisas de nosso mundo. Segundo a física aristotélica, os corpos pesados tendem a cair com maior rapidez em relação aos mais leves, seguindo os preceitos qualitativos de seu modelo físico. O universo ou o cosmo é fechado.

Este modelo de mundo fechado em si mesmo permanecerá como tal até meados finais do período medieval, pelo simples fato de que as filosofias aristotélica e platônica se tornaram as referências intelectuais para o mundo cristão. Todavia, o modelo proposto por Platão à astronomia é que deixará inúmeras reservas quanto a sua veracidade.

Platão afirmara que todos os planetas, por estarem no mundo supralunar, seguem uma órbita circular e uniforme, obedecendo ao seu sagrado axioma ou dogma do ‘movimento circular e uniforme’. Ora, algo está errado neste axioma, porque a partir do instante em que os astrônomos voltavam suas observações para os céus, verificavam que havia uma disparidade dos fatos observados e a teoria de Platão. Estas disparidades se concentram, sobretudo, na variação de brilho dos planetas, denotando que a trajetória não é efetivamente marcada pela circularidade, pois, a característica primeira do círculo é a de que todos os pontos da circunferência estão á mesma distância do seu centro. Muito menos existe uniformidade, pela razão de que os planetas retroagem ao longo do caminho em torno da Terra, principalmente o planeta Marte, que ora, avança com rapidez em certos momentos, e perde sua velocidade, voltando para trás em outras ocasiões. Aliás, é preciso deixar claro que a palavra axioma significa que é uma verdade sem necessidade de qualquer tipo de comprovação empírica, o que não corresponde à realidade. No entanto, como contrariar o dogma platônico, se ele se tornou uma autoridade para todo o mundo antigo?

Eis que entra em cena Ptolomeu de Alexandria, século III a. C., famoso geômetra e profundo estudioso da trigonometria, ao constatar as irregularidades vistas pelos demais pesquisadores, constrói um modelo baseado em círculos deferentes e epicíclicos. Os deferentes são círculos onde estão grudados os epiciclos, círculos menores, em que estão agrupados  os planetas. Em outras palavras, os planetas não giram diretamente no deferente, e sim no epiciclo. Sendo assim, este modelo explica a variabilidade das intensidades de brilho dos próprios planetas em seus respectivos percursos, como também explana satisfatoriamente o fato dos planetas voltarem para trás algumas vezes.

Copérnico, logo após as grandes navegações, começa uma discussão que se direciona para o sentido de que o padrão astronômico de Ptolomeu é demasiado complexo, e que é premente criar um modelo que siga os critérios de simplicidade. Para Copérnico se forem destruídos todos os epiciclos e deferentes para cada órbita planetária, torna-se possível entender como os planetas giram em torno de um centro. Este centro, contudo, passa a ser o sol e não mais a Terra. Fica mais fácil, portanto, explicar o movimento diurno (produção do dia e da noite). Por sua vez, a Terra adquire, segundo a teoria de Copérnico, dois movimentos: o de rotação e de translação. Ora, a Terra agora se torna mais um planeta que gira em torno do sol, semelhante a qualquer outro. Em certa medida, Copérnico apreende as considerações de um astrônomo grego chamado Aristarco de Samos, quando sustentava justamente que a Terra é um planeta que cumpre a sua órbita num determinado período de tempo. Assim, o cônego polonês lança as suas máximas astronômicas, introduzindo questionamentos nos ensinamentos tradicionais, baseados tanto no aristotelismo e platonismo.

Vejamos, então, algumas destas máximas de maior destaque que acabarão por compor as ‘Revoluções das Órbitas Celestes’:

1.     “O Centro da Terra não é o centro do universo, mas apenas o da gravidade e o da órbita da Lua”.

2.     “Esferas giram em torno do sol e o Sol é o centro do universo”.

3.     “A distância das Estrelas fixas é tão imensa que, em comparação, a da Terra ao Sol é insignificante”.

4.     “Os movimentos que aparecem no firmamento não provém do movimento do firmamento, e sim da Terra, que cada dia gira em torno do seu eixo”.

Na segunda parte deste artigo, trataremos, então, das conseqüências das teses copernicanas e a participação de Galileu Galilei no processo. 

Paulo César Gomes de Souza

Mestrando em Filosofia da Ciência - Unicamp

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1) Koyrè, A - Do Mundo Fechado ao Universo infinito, ed. Universidade de Brasília

 2) Koyrè, A. - Estudos de História do Pensamento Científico, Ed. Universidade de Brasília.

 3) Galileu Galilei - Duas Novas Ciências, Istituo Italiano di Cultura.

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