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Maquiavel: a busca da “virtù” e as exigências da fé cristã

 

Em sua análise das conexões existentes entre a busca da “virtù” e as exigências da fé cristã, Maquiavel contesta a posição de seus antecessores e compatriotas, que afirmavam os ditames da moralidade cristã como norma a ser necessariamente seguida pelo cidadão de “virtù”.

Vejamos o centro do problema, polêmico por excelência.

Para Maquiavel, afirmar necessária compatibilidade entre a “virtù” e as virtudes, sobretudo as cristãs, é esquecer das implicações que decorrem da caracterização do cidadão de “virtù” como aquele que tem disposição para colocar os interesses da comunidade acima dos seus. Se estivermos genuinamente empenhados no ideal da “virtù”, e concordarmos com a decorrente obrigação de situarmos os interesses da pátria acima dos demais, então, conforme Maquiavel, não poderemos continuar supondo que um homem virtuoso e um homem de “virtù” necessariamente haverão de se portar do mesmo modo. Numa análise extremamente realista, que lhe é bastante peculiar, Maquiavel afirma que não podemos imaginar que virtudes como a bondade, a sinceridade e o respeito à justiça se mostrem sempre compatíveis com um firme propósito de alcançar o bem geral da comunidade. O grande dilema de um homem de “virtù”, segundo Maquiavel, é que muitas vezes é impossível atingir os fins desejados (a conservação do estado e o bem geral) se não for pelos meios que ele não deseja. A meta de manter a liberdade e a segurança de uma república, para o secretário florentino, representa o valor mais elevado da vida pública. Por isso Maquiavel não hesita em concluir que não tem cabimento utilizar uma escala de valores cristã no exame dos assuntos políticos – deve-se atuar da maneira mais virtuosa possível, mas, contudo, se a liberdade da pátria exigir que se faça o caminho dos malfeitores, devemos fazê-lo sem hesitações. Eis a questão a se resolver: ou se exclui por completo os métodos, digamos assim, com uma ponta de ironia e dissimulação, maquiavélicos, e vive-se como um cidadão privado, ou se dispõe a “ingressar na trilha do malfazer” a fim de manter seu estado. Segundo Skinner, em Maquiavel “/.../ deixa de haver qualquer conexão necessária entre os conceitos de virtù e virtude. A idéia de virtù fica simplesmente identificada a quaisquer qualidades que, na prática, sejam necessárias ‘para salvar a vida e preservar a liberdade da pátria’. Esclarece-se, às vezes de maneira brutal, que essas qualidades não estão próximas da lista aceita de virtudes cristãs e morais. "[1] Deve-se grifar o fato de que Maquiavel jamais interpreta a “virtú” como um dado antropológico. Para o secretario florentino, com efeito, a “virtú” exprime uma capacidade de agir no interesse do bem público. Daí o fato de ele recorrer à história para exemplificar atos virtuosos.

A atitude crítica do secretário florentino em relação às virtudes cristãs, fica ainda mais explícita quando, ao comparar a religião pagã com a religião cristã, Maquiavel afirma que, enquanto a primeira produz um tipo de homem que tem como característica o espírito guerreiro, a segunda engendra um homem fraco, sem espírito de conquista, sem força, enfim, um homem contemplativo, dócil, humilde  – o oposto do guerreiro ativo forjado pelo paganismo. No confronto entre o arquétipo de padrão de moralidade antiga, engendrado pelo paganismo, e o arquétipo de padrão da moralidade cristã, o pensamento maquiavélico prefere o espírito ativo e guerreiro valorado e incentivado pela religião romana.

Não temos como evitar as ações consideradas “repreensíveis” se quisermos manter a liberdade da República. E se é essencial os príncipes aparentarem ser virtuosos na forma convencional – e sobretudo na aparência –, muitas vezes se torna impossível eles se portarem de um modo convencionalmente virtuoso. A ação humana é, ela mesma, a única base para julgamentos normativos; e a ação política é a ação que cria a ordem dentro da qual tais julgamentos podem ser feitos. Neste sentido, há dois critérios avaliativos da ética política em Maquiavel: a lealdade do agente político a algo que transcenda sua fortuna pessoal e os efeitos da ação desse agente. Ou seja: 1) bem comum; 2) resultado da ação.

Maquiavel, com efeito, está de pleno acordo com os autores tradicionais quanto à natureza das metas a que o príncipe deve buscar: o objetivo do governante, do príncipe, é o de “manter seu estado” -  neste ponto, o pensamento maquiavélico e o de seus contemporâneos convergem perfeitamente. A diferença crucial estaria na natureza dos métodos a serem utilizados para tal fim, ou seja, para a manutenção do estado. Ora, enquanto os teóricos mais convencionais afirmavam que para alcançar tal meta, deve-se seguir os ditames da moralidade cristã sob toda e qualquer circunstância, Maquiavel bradava em alto e bom som que, sob algumas circunstâncias, o príncipe deve renunciar às exigências da virtude cristã, abraçando com força a moralidade que é própria da posição ocupada por ele. Trata-se não de um divórcio entre a moral e a política, mas, isso sim, de duas moralidades distintas - duas exposições antagônicas e incompatíveis do que, em última análise, se deve fazer para a manutenção e a conservação do estado.

 

André Constantino Yazbek.

Mestrando em Filosofia (PUC/SP).

 



[1] SKINNER, Quentin - “As Fundações do Pensamento Política Moderno”. Ed.: CIA das Letras, São Paulo, 2.000; p. 205.

 

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