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A Lógica aristotélica: constituição e conteúdo

        

Depois da morte de Aristóteles em 322a.C, os escritos do filósofo foram reunidos por seus alunos e, entre tais escritos, uma parte dos tratados aristotélicos sobre o raciocínio. Tratados esses que foram agrupados sob o título de Organon (ou instrumento da ciência). Embora a palavra 'lógica' só tenha adquirido o seu sentido moderno ao ser usada por Alexandre de Afrodísia 500 anos mais tarde, o âmbito da investigação posteriormente denominado lógica foi fundamentalmente determinado pelo conteúdo do Organon.

Embora o título Organon não seja de autoria de Aristóteles, define de forma coerente o sentido da lógica aristotélica, a qual pretende fornecer INSTRUMENTOS para a investigação. "O Estagirita chamava a lógica com o termo 'analítica' (e justamente Analíticos são intitulados os escritos fundamentais do Organon). A analítica (do grego análysis, que significa 'resolução') explica o método pelo qual, partindo de uma dada conclusão, nós a resolvemos precisamente nos elementos dos quais deriva, isto é, nas premissas e nos elementos de que brota, e assim a fundamentamos e justificamos."[i] Aristóteles de Estagira, proveniente da Macedônia, ingressa na Academia de Platão em 367a.C., a fim de prosseguir seus estudos. Dotado de acentuado interesse pelas pesquisas biológicas, Aristóteles contrapõe a observação e a classificação constituintes da investigação naturalista à investigação matemática predominante na Academia. Após freqüentar a escola platônica por cerca de vinte anos e deixar Atenas por uma década, Aristóteles abre sua própria escola, o Liceu, em 336a.C, um centro de estudos voltado às ciências naturais. Esta dupla formação influenciará imensamente na constituição da filosofia (e em especial da lógica) aristotélica.

         Relembremos de forma breve a ordenação platônica do universo: a contraposição de opinião e verdade conduz à distinção de um mundo sensível e de um mundo inteligível. O primeiro compreende o mundo de ordem material, a transformação, a imperfeição, a manifestação, a mutabilidade, a multiplicidade, a corrupção, a degeneração, sendo análogo ao mundo das opiniões e do falso conhecimento. O mundo inteligível, por outro lado, compreende a verdade, o real, a imutabilidade, a unicidade, a eternidade, a estabilidade, a idéia. Um mundo ideal, e enquanto tal, transcendente. A partir da sucessão de teses e antíteses seria possível ascender do mundo das opiniões para a contemplação da verdadeira ciência.

         Deste modo, o caráter hipotético da pesquisa matemática estava subjacente à dialética platônica, a qual se comprometia com o conhecimento certo apenas em última instância. Característica esta que incomodava Aristóteles: diante da constante ameaça do relativismo, o Estagirita buscava a adoção de um instrumento mais seguro para constituir a ciência. O Organon compreende o projeto aristotélico para buscar construir um conjunto de conhecimentos seguros e atingir a certeza científica. A dialética, por conseguinte, passa à condição de exercício mental que lida não com as coisas mas com as opiniões humanas sobre as coisas, não pretendendo atingir a verdade, uma vez que permanece no âmbito da probabilidade.

         Na tentativa de buscar estabelecer um instrumento seguro para a constituição da ciência, coube a Aristóteles o estabelecimento de regras de pensamento que possibilitam fazer corretas demonstrações. Este raciocínio que parte da afirmação de determinadas coisas e conduz inevitavelmente a aceitação de outra afirmação foi denominado silogismo e será apresentado com detalhes num  próximo artigo. Não por outros motivos, Aristóteles é considerado o criador da lógica formal: o primeiro pensador a prescrever regras de raciocínio que independem do conteúdo das sentenças proferidas. A lógica não se ocupa com a verdade das proposições (objeto da ciência), mas com a validade dos argumentos. (À lógica não importa a verdade efetiva mas a verdade suposta dos enunciados.)

         Deve-se ressaltar, no entanto, que para Aristóteles era insuficiente considerar a ciência do ponto de vista de sua coerência interna. Tornava-se necessário, igualmente, pensar sob o prisma da verdade dos enunciados. Hoje em dia esta dupla preocupação é o que distingue as partes sintática (referente à estrutura formal dos signos da linguagem) e semântica (referente ao significado ou à interpretação desses mesmos signos) da lógica.

         Como visto, a tentativa de superar o caráter hipotético (e portanto relativo) da dialética platônica compreende uma das dimensões da lógica construída por Aristóteles. Devemos lembrar que a filosofia platônica também contribuiu para o desenvolvimento da lógica aristotélica ao examinar o problema da negação e da falsidade[ii]. Ou em outras palavras: "Platão examina estas noções e resolve os problemas a respeito da negação tornando claro que o discurso é essencialmente aquilo que pode ser verdadeiro ou falso: i.e., nenhuma afirmação tem sentido a menos que a sua negação também o tenha. (...) As idéias segundo as quais a predicação não idêntica e a negação não tinham sentido, teriam constituído um grande embaraço e blocado seriamente o desenvolvimento da lógica. Os esforços de Platão permitiram a Aristóteles tratar estas dificuldades como simples curiosodades históricas. Certamente que não o perturbaram."[iii]

Patrícia Del Nero Velasco

Mestre em Filosofia – PUC/SP



[i] REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario - História da filosofia, vol. 1, Paulinas, São Paulo, 1990, p. 211.

[ii] Tais problemas são examinados no Teeteto, 187d ss, e no Sofista, 237ass.

[iii] KNEALE, William e KNEALE, Martha - O desenvolvimento da lógica, tradução de M. S. Lourenço, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1991, p. 24.

 

 

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