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 Editorial

Ética: o caminho para romper com a ontologia da guerra

O mundo vive um momento de grande tensão e muito se tem falado de uma iminente guerra mundial. Enquanto uns defendem os E.U.A., outros aproveitam a oportunidade para criticar seu imperialismo. Mas poucos apontam a questão principal, como alcançar a PAZ,  ao mesmo tempo em que a grande maioria apóia o direito de os E.U.A. fazerem justiça (ou será vingança?), enquanto bombardeiam o Afeganistão.

É difícil falar em PAZ quando todos empunham suas armas para a guerra. Mas não é impossível. Neste instante de reflexão, é preciso repensar o sistema mundial vigente.     É preciso aprofundar a questão, ir além dos contornos econômico-políticos. Emmanuel Lévinas, judeu, nascido na Lituânia, em 1906, e radicado na França desde 1923 até a sua morte, em 1995, vivenciou os horrores das duas Guerras e sempre trabalhou pela PAZ, mesmo tendo sido prisioneiro do nazismo, e uma das questões principais que apresentou foi sobre a necessidade de se delimitar o papel da moral em nossa sociedade: “Facilmente se concordará que importa muitíssimo saber se não nos iludiremos com a moral” (in Totalidade e Infinito). E esta frase aponta o cerne da questão. Que moral é essa que todos defendem pela guerra?  É evidente que a razão sustenta essa guerra, dando-lhe contornos de moralidade, sobretudo por intermédio da política, que deveria ser o instrumento da razão para estabelecer a paz, mas tem, na verdade, em nossa civilização, o condão de promover a guerra e destruir a Moral. Aliás, Lévinas afirma com todas as letras: “A política opõe-se à moral, como a filosofia à ingenuidade”(idem).

Não é difícil concluir, diante dessa reflexão, que a sociedade contemporânea é profundamente hipócrita. Por isso é necessário revisar os parâmetros atuais. Somente assim, será possível romper com o estado que se funda na guerra passada e estabelecer uma relação "originária e original" com o ser, como diz Lévinas, e construir um autêntico mundo de paz, a partir de um novo paradigma.

Nesse processo, deve-se Ir "além da totalidade", num movimento de transcendência não nos moldes cartesianos, kantianos ou hegelianos, precursores do sistema vigente, mas levinasianos, isto é, na abertura da relação com Outrem,  no “face-a-face”, resgatando a identidade do ser humano para que possa deixar de ser um mero joguete nas mãos daqueles que defendem a Totalidade hermética e fazem a história.

E esta tomada de posição carrega em si, fundamentalmente, a mudança de eixo no processo de transcendência filosófica, que passa, então, para a relação do Eu com o Outro,  o outro humano e não divino, o Outro que jamais será reduzido a noemas ou interiorizado pelo Eu e, conseqüentemente, será sempre fonte da idéia do infinito. Assim, a Ética deve ser entendida como a Filosofia Primeira, a Metafísica, vez que é a Ética que trata da relação interpessoal. Por isso não basta a "proclamação da moral a partir do subjetivismo puro do Eu" consoante afirma Lévinas, que é engolida pela ontologia da guerra.

O homem não pode mais limitar-se a fazer parte da massa consumidora alienada pelos grupos dominantes. Precisa retomar as rédeas da história e para isso, deve assumir sua própria identidade, assumindo a sua responsabilidade de ser-com-outrem. Desta forma, o homem poderá romper com a "ontologia da guerra" e produzir a paz a cada instante, sem ficar esperando o "último juízo", sem ficar acomodado. E a subjetividade que se defende aqui é, pois, a defesa da subjetividade feita por Lévinas no livro "Totalité et Infini". A defesa da subjetividade enquanto HOSPITALIDADE, e não como fundante de uma totalidade absoluta e egoísta, distinguindo, assim, a idéia de totalidade da idéia de infinito.

Tudo isso, sem esquecer, com o fim claro de romper definitivamente com a ontologia da guerra e estabelecer a paz verdadeira.

 

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