Revista Paradigmas. Edição 01

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Filosofia, a base para uma educação de qualidade.

 

"Todo povo que atinge um certo grau de desenvolvimento sente-se naturalmente inclinado à prática da educação."

Werner Jaeger.

 

Um dos temas mais debatidos e discutidos nos dias atuais é a educação e como educar o homem para o século XXI. Mas por mais que se debata e se reflita a respeito, parece que os caminhos da educação não têm dado muito certo. Para podermos mudar a situação é preciso trilhar um caminho totalmente novo. Para tal, nossa primeira pergunta é: o que é a educação?

Vamos partir da própria natureza para podermos encontrar a resposta. Todos os seres vivos possuem um instinto de preservação. Qualquer animal procura, ao longo de sua existência, a autopreservação e a da sua espécie. Este instinto serve como base para conservar e propagar a sua forma de existência. Como animal, o homem sente o mesmo desejo, porém, há uma grande diferença, uma diferença que coloca este mesmo homem em um nível mais elevado.

O homem possui uma esfera superior, não encontrada nos demais animais; a esfera da inteligência/razão, associada ao espírito. É ela que faz da vida do homem mais rica que a de todos os outros seres da existência e ao mesmo tempo que infunde no homem um desejo de conservação mais perfeito (superior), cria condições para que a mesma aconteça.

Presente no mundo, o homem encontra uma série de obstáculos e dificuldades para viver. A razão é o dom que permite ao homem olhar para este mundo, compreendê-lo e, desta compreensão, criar novos e melhores meios de vida. A esta criação damos o nome de cultura. A cultura é, pois, a parte da existência criada pelo homem na sua luta pela sobrevivência. Um exemplo bem simples de cultura são as roupas. Não há roupas na natureza, elas são criação humana. Desde o início da história, o homem confecciona vestimentas com o objetivo de proteger-se das intempéries climáticas do mundo. Desde as roupas mais simples dos primórdios da existência humana, que talvez fossem apenas peles de animais jogadas pelo corpo, evoluímos para algo melhor, como os tecidos sintéticos ou então os grandes estilos de corte e confecção encontrados nos dias atuais.

Assim, o homem vai criando uma série de elementos em todos os campos de su vida; sendo que, sem sombra de dúvida, os mais importantes são os valores. Destes, temos vários: valores éticos, estéticos, econômicos, religiosos, políticos e lúdicos, entre outros. Esta enorme complexidade de elementos e, principalmente o espírito do homem que os criou, exige um processo de conservação e propagação especial. A este processo damos o nome de educação.

Uma vez respondida a nossa primeira pergunta, partirmos em busca da importância da filosofia na educação do homem. Antes, porém, recolocamos, de forma sintética, tudo aquilo que discorremos acima: A educação é o processo través do qual o homem preserva e propaga o seu espírito e a sua forma de existência.

Durante a vida, toda pessoa já deve ter se perguntado alguma vez o seguinte: O que é a educação? Como se dá a educação? Qual a importância dela na vida do homem? Por que eu me educo e educo os meus semelhantes?

Todas estas perguntas são de cunho filosófico. Vejamos:

Se a educação tem como objetivo conservar e propagar a sua forma de existir humana, é objetivo dela preparar o homem para a vida, pois somente preparado ele é capaz conservar-se. Para este preparo se realizar, dois elementos são chave: a autoconsciência e a consciência do seu meio.

Num primeiro momento, a busca pela autocompreensão, o ser humano percebe-se um ser complexo, dotado de várias esferas diferentes, por exemplo, as esferas física, química, espiritual, emocional e psicológica. Para o estudo e a compreensão das mesmas existem ciências como é o caso da biologia, da sociologia, da história e da psicologia. No entanto, todas elas, ao estudar o homem, realizam no mesmo um corte. Este corte significa que a ciência estuda apenas aquela esfera que lhe interessa, isolada de todas as demais. Exemplificando, temos a biologia que estuda o homem apenas como um ser biológico, desconsiderando os elementos sociológicos ou mesmo psicológicos nele existentes. Para tais esferas existiriam as ciências da psicologia e da sociologia. A mesma política é usada por todas as demais ciências.

Contudo, o estudo do homem apenas através das ciência fica incompleto, pois sendo ele homem um ser complexo só será devidamente entendido se for estudado de forma global. Não podemos separar o ser humano em compartimentos estanques como pretendem as ciências, pois assim não       estaremos    estudando  o fenômeno humano corretamente. É a filosofia o saber, ou conhecimento, que estudará este ser humano da forma global. É a filosofia que estuda o ser humano sob uma perspectiva de conjunto. Vale dizer, é ela que estuda o fenômeno humano associando todas as suas esferas, levando-as igualmente em consideração e trabalhando-as ao mesmo tempo. Tal entendimento a respeito da natureza humana é basilar, pois é o próprio homem que pretendemos educar, e não podemos fazê-lo de forma satisfatória se não soubermos o que é o homem.

Após a autocompreensão é importante, como dito acima, a consciência do meio. Por quê?

Sabemos que a vida humana se dá no meio da natureza e da sociedade e, para que este viver seja bom e produtivo faz-se necessária a harmonia. Ora, é impossível ao homem harmonizar-se com algo que nem sequer conhece. Assim, é básico o estudo radical da sociedade e da própria natureza, que, no frigir dos ovos é um estudo de cunho filosófico. Afirmamos isso com certeza, porque sabemos que tanto a natureza como a sociedade são organismos tão complexos e multifacetários quanto o próprio ser humano, sendo também nelas imprescindível a visão de conjunto.

Assim, a filosofia é conditio sine qua non para a educação, porque estuda o homem, a natureza e a sociedade conforme estes se apresentam no mundo real: complexos e multifacetários. Tal postura diante da realidade faz filosofia um conhecimento anos-luz à frente das ciências particulares, pois enquanto estas começam a descobrir a chamada multidisciplinaridade, a filosofia já aponta para esta integração de conhecimentos desde o seu surgimento, há mais de dois mil anos.

Thiago Batich dos Santos

Licenciatura plena em Filosofia.

Mestrando em filosofia PUC/SP.

Bibliografia pesquisada:

Paidéia - A formação do homem grego - Werner Jaeger.

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